De onde vem o gosto pela leitura? Haveria prazer no ato de ler? De qual prazer se fala, quando se fala no prazer da leitura?
Ler é o ato que precisa de outro para reconhecer e legitimar sua
inauguração. É por isso que, na escola, pede-se que se mostre o que se
sabe. Na escola lê-se em voz alta, tanto para convencer de que se deve
ler, quanto para ensinar o que se deve ler. Escolhendo o que deveria
ser lido e como deveria ser lido, a escola pretende desenvolver o gosto
pela leitura.
A escola deve estabelecer como prioridade, que a leitura deve dar lugar ao trabalho, e ser ela mesma parte de um trabalho.
Pode-se fazer de um trabalho um prazer? Sim, pode, depois de uma
elaboração muito paciente. Tem que dar aos alunos a possibilidade de
criar algo completo, que é impossível levando-se em consideração
vários fatores. Criar implica um certo trabalho. Mas, em cima desses
exercícios "incompletos", é possível sensibilizar os alunos para a produção e para
a recepção dos efeitos.
Considerando as práticas de leitura e produção (escrita), pode-se ensinar literatura?
No amor pela procriação, pela criação, que o escritor escreve. É nesse
amor dele que estamos imersos quando lemos, pois o que também
procuramos é o belo, algo que seja capaz de de nos fazer conceber
aquilo que estavámos prenhes há muito tempo e sobre o que nada
sabíamos. Opera-se em nós uma criação do pensamento e das demais
virtudes¹. Diferentes autores nos oferecem a chance única, irrepetível,
de descobrir em nós mesmos, e de criar, diferentes maneiras de lidar
com o texto.
E retorna-se a pergunta: Pode-se ensinar literatura?
Só é preciso ensinar isso, porque dela se aproximam todos os saberes.
Um texto, uma leitura, me faz saber capaz de qualquer coisa. A
literatura é a mediadora do saber. Dizem alguns, que basta saber ler.
Uma prática de leitura, uma prática de criação de texto nos remete a
literatura, pois é ela quem nos oferece essas oportunidades. Só é
preciso ensinar literatura.
Ler é uma palavra polissêmica e está presente em diversos campos do
conhecimento e do fazer: na astronomia, no direito, na filosofia, na
retórica... É o ato ou aquilo que atesta veracidade ou a autenticidade
de alguma coisa; o processo pelo qual se verifica a exatidão de um
cálculo. Ler nos ensina a pensar, pensar articuladamente, sempre
acreditando que cada idéia faz parte de um texto em sua inteireza, mas
também é um fragmento que pode permitir-me compor outros outros textos
e com outros outros textos.
1 - BARTHES, R. "Vinte palavras-chave para Roland Barthes". in: O Grão da voz. Entrevistas. Porto: 1982.