Cecília Meirelles (RJ-190 1-1964) foi uma escritora integral. Merece muita atenção como poeta (porque ela nunca gostou de
ser chamada de poetisa) e por seu magnífico trabalho e por isso tudo deve assinalar, que ela foi e continua sendo um dos principais nomes femininos da poesia brasileira. Seu livro de estréia, "Espectros" (1917), ainda que dentro os cânones parnasianos, assinalam a entrada de Cecília no grupo de poetas do Brasil. Cecília foi influenciada por filosofias religiosas ocidentais, combinando com estas, uma espiritualidade fina e um modo feminino de enxergar o universo. Apesar de ter vivido as efervescências da "geração de 22",deles Cecília herdou aquilo que seria mais duradouro: a liberdade de pesquisas formais. Convém lembrar que Cecília participou ativamente do grupo da revista "FESTA", de caráter simbolista, daí o fato seus poemas possuírem certa leveza e suavidade. O poema “Lamento de um policial por seu cavalo morto” é interessante porque possui um tom filosófico de profundas indagações a respeito da vida, adquirindo um tom futurista em relação ao mundo. Observe o poema: Nós merecemos a morte, porque somos humanos e a guerra é feita pelas nossas mãos, pelo nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra, por nosso sangue estranho e instável, pelas ordens que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.
Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia, os cálculos do gesto, embora
sabendo que somos irmãos. Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros! Que delírio sem Deus, nossa imaginação! E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha, que, enganada, recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno, ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração. Animal encantado - melhor que nós todos! - que tinhas tu com este mundo dos homens? Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada em carne e sonho, que os teus olhos decifravam... Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos... Como vieste morrer por um que mata seus irmãos! (in Mar Absoluto e outros poemas: Retrato Natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983.) A poeta esta fora do ângulo dos acontecimentos, e o narrador dos fatos é o próprio protagonista. Quando ele diz: " ... Nós merecemos a morte". É a uma aceitação da morte, como algo inerente a um mundo injustiçado pelas guerras cruéis que segundo ele, nós que criamos com nossas mãos e as nossas mentes. " ... E a guerra é feita pelas nossas mãos, pela nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra". O tom futurista do poema está presente quando a personagem diz: " ... Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia, os cálculos do gesto, embora sabendo que somos irmãos". Nestes versos fica bem claro, que toda esta tecnologia será uma faca de dois gumes, poderá ser útil ao homem, mas também poderá dividi-los, tornando o mundo onde cada um vivera por si. A terceira, quarta, quinta e sexta estrofes, adquirem um tom simbolista e ao mesmo tempo real. Enquanto o personagem tem a consciência de que quem deveria estar morto era ele e não o seu cavalo, ele se volta às indagações sobre o que um pobre animal tem a ver com guerras causadas pelos homens, e relembra (ou tenta relembrar) do seu fiel companheiro enquanto tinha vida. Mas o cavalo esta morto, e suas lembranças não vão trazê-lo de volta a vida. É ai que exclama num grito estrangulado pela dor: " ... Como veio morrer, por um que mata seus irmãos"!