O INFERNO DO INFERNO, EM “VIDAS SECAS”
“Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, publicada em 1938. O livro
é dividido em "13" contos, tendo como força criativa o conto "Baleia", que segundo o autor foi o primeiro deles em que escreveu. A linguagem predominante na obra é a metonímia, cuja figura utilizada pelo locutor toma-se o texto cinematográfico, principalmente, pela realidade retratada do sertão nordestino com suas peculiaridades marcantes de
sofrimento. Narrada na terceira pessoa , o autor, Graciliano Ramos, movimenta os seus
personagens - ou figuras humanas - com uma tamanha impassibilidade que logo indica o desencanto e a indiferença sob o modo de olhar para a humanidade. A construção literária de “Vidas Secas” agrega-se a um valor negativo atribuído aos personagens. A crítica impressionista está centrada na realidade do interlocutor, a quem cabe transmitir as impressões que mais profundamente marcam a sua sensibilidade em contanto com as obras primas, onde a crítica deve agir livremente, segundo os impulsos de suas descobertas pessoais. O autor, ao rotular a obra, “Vidas Secas”, ele estabelece uma ligação consciente com a palavra "Inferno", tendo-a como foco central no decorrer das narrativas de cada conto. A palavra inferno é projetada na obra para dar ao leitor a visão de um mundo obsceno, marcado pela desgraça, criaturas em desencontro com o destino, humilhadas e destroçadas. A temática de Graciliano Ramos é quase sempre rude ou dolorosa: A seca e as situações sociais de opressão com o homem, estes elementos irão ser encontrados no romance onde é impossível encontrar alegrias e prazeres. O leitor, criticamente, deve observar o modelo negativo das personagens e ambientes na obra que demonstram o poder real da palavra "Inferno", do latim infernus, -a,-um – adjetivo (inferior, o que está abaixo de tudo, ínfimo). Se recorrermos na obra de Dante Alighieri, “A Divina Comédia”, encontramos com minuciosidade as características do inferno. Este autor renascentista foi o único a descrever o inferno de forma realista, a ponto de não somente impressionar os seus interlocutores, como também a dar, mesmo de forma subjetiva, subsídios capazes de caracterizá-lo. Resumindo:
Dante então decide seguir Virgílio que o guia e protege por toda a longa jornada através dos nove círculos do inferno, mostrando-lhe onde são expurgados os diferentes pecados, o sofrimento dos condenados, os rios infernais, suas cidades, monstros e demônios, até chegar ao centro da terra, onde vive Lúcifer. Passando por Lúcifer, conseguem escapar do inferno por um caminho subterrâneo que leva ao outro lado da terra, e assim voltar a ver o céu e as estrelas. (grifo meu).
O leitor observar-se-á durante o transcorrer de “Vidas Secas”, a ausência de momentos agradáveis e felizes dos personagens, quer num lugar ou outros, voltados pela idéia vaga, desprovida de uma exata definição de moradia, tomamos como exemplo o primeiro conto do livro (mudança) e o último conto (fuga).
Esses dois contos perfazem a linearidade da obra carregada pelo destino no mundo sinistro e sombrio numa verdadeira categoria infernal, onde não existe atalho para a felicidade. Os personagens estão convencionados neste caminho circular de sofrimento: O INFERNO É AQUI!