Embora seja ainda de linha acadêmica, a
linguagem de Iracema vem perpassada de um tom bem brasileiro; não só o farto
vocabulário indígena o exemplifica, como também muitas construções sintáticas que revelam bem o jeito brasileiro de usar a língua portuguesa. Na
linguagem de Iracema há o gosto por comparações com elementos do mundo focalizado pelo autor e que se casa bem com a postura selvagem do índio, que vivia integrado com a natureza. Esse recurso é freqüente na obra, como podemos perceber nesta passagem; “o guerreiro Pitiguara é a ema que voa sobre a terra.” O estilo de Alencar sempre primou pela exuberância do descritivismo que se revela pela adjetivação fértil e colorida. Dono de uma imaginação prodigiosa, Alencar sabe rechear um texto de adjetivos e matizes, dando ao leitor a impressão de uma pintura moldada em um quadro. O caráter poético da linguagem é quase poesia. A linguagem chega a parecer ingênua, exatamente porque o autor quer captar o mundo selvagem do índio, tal como ele é, a sua maneira de pensar e exprimir, tecendo imagens poéticas, conforme a visão de seus personagens. Em suma, Alencar procura adequar a linguagem ao mundo focalizado. Chamado de “
poema em prosa” pela crítica, dado o ritmo e cadência de Iracema, mais de um autor procurou demonstrar o caráter de poesia do livro. Realmente, sobretudo a belíssima abertura do livro é marcada por um ritmo cadenciado, podendo as palavras ser distribuídas em versos de um poema tradicional:
“Verdes mares bravios (6 sílabas de minha terra natal, (7) onde canta a jandaia (6) nas frondes da carnaúba; (7) Verdes mares que brilhais (7) Como líquida esmeralda (7) Aos raios do sol nascente, (7) Perlongando as alças praias (7) Ensombradas de coqueiros; (7) Serenai, verdes mares, (6) E alisai focemente (6) A vaga impetuosa, (6) Para que o barco aventureiro(8) Manso resvale à flor das águas”. (8)