Da última vez que estive na
California, em
janeiro de 2006, não fui nem ao
Jazz Bakery nem ao Downbeat Cafe.
Fui a um simpático lugar em Glendale chamado
Jax Bar & Grill. O motivo era simples: lá estava se apresentando
Jack Sheldon, uma das raras lendas ainda vivas do west coast jazz. Não pude, nem tentei, conter minha felicidade e emoção: afinal, seus colegas de estrada Chet Baker, Joe Maini, Stan Getz, Red Mitchell, Frank Rosolino, Art Pepper, Curtis Counce, Jimmy Rowles, Conte Candoli, Wardell Gray e tantos outros já estavam mortos há muito, boa parte deles com menos de 40
anos. O que sentir ao ver aquele camarada, aos 75 anos de idade e 62 anos de carreira tocando com a vitalidade, a categoria e a alegria de sempre? Quando, num dos intervalos, vi aquela figura gorda, com enormes bochechas vermelhas, aproximando-se em passos lentos e sorriso largo, não vacilei e cometi uma das ações humanas que considero das mais nefastas: corri até Jack e lhe pedi um autógrafo, comentando rapidamente de onde eu vinha e o quanto eu apreciava sua música. Apesar de atônito e surpreso com as frases incompreensíveis proferidas por um descontrolado fâ latino proveniente dos subúrbios do Rio de
Janeiro, Jack foi extremamente simpático e, além do autógrafo, tirou generosamente algumas fotos comigo. Nessa hora, mais uma vez, restava confirmado o velho brocardo segundo o qual jazz se faz ao vivo, se produz ao vivo, acontece ao vivo. E, sem dúvida, é aquele tipo de música onde a emoção do encontro, os pequenos gestos de prazer e a acumulação de sentimentos que raramente são compartilhados misturam-se ao turbilhão de sons que brincam pelo ar e, inevitavelmente, morrem assim que o sol nasce. Ficam apenas lembranças. Lembranças de momentos passados com um dos maiores brincantes do jazz: Jack Sheldon: grande trompetista, cantor, comediante e ator. Uma alma rara. Aos amigos navegantes deixo no
Gramophone By John Lester a faixa JS, gravada em 1959 com os seguintes solistas (na ordem): Herb Geller (as), Stu Williamson (tb), Harold Land (ts), Chet Baker (t) e Art Pepper (as). Depois dizem que Chet não era capaz de tocar com velocidade nem extrair agudos de seu trompete. Só rindo. Na cozinha Pete Jolly (p), Red Callender (b) e Mel Lewis (d).
O figuraça vai para os 76 e ainda se apresenta, toda quinta, no Jax. Quem quiser conferir, clique AQUI.