Há três anos, o empresário Luiz Fernando do Valle transformou-se numa espécie de garoto-propaganda da ecologia. Suas camisas e gravatas eram verdes e chegou a comprar um paletó verde-musgo. Pintou as paredes do escritório de verde. Até o papel higiênico era verde. A mania irritou sua mulher e inspirou piadas entre os amigos. “Diziam que eu parecia um abacate”, afirma. “Agora, não faço mais isso. Passo meu recado discretamente.” Valle, de 52 anos, tornou-se ambientalista em 2004, quando fundou a Esfera, um grupo da construção civil de São Paulo. Sua estratégia, logo no início, foi apostar no nicho da sustentabilidade, pouco explorado pelas construtoras do Brasil. Aqui há prédios que respeitam o meio ambiente, mas em geral são apenas edifícios comerciais, com alto padrão. Valle decidiu apostar em prédios residenciais, que ele batizou de EcoLifes. Apesar de os edifícios incluírem itens que encarecem o preço final, como energia solar e reciclagem de água, eles são voltados para a classe média. O apartamento custa de R$ 90 mil a R$ 300 mil. “Os prédios residenciais sustentáveis se tornaram comuns lá fora. O que fiz foi só adaptá-los à realidade brasileira”, diz Valle. Especialistas em residências ecologicamente corretas aprovam o projeto, que já tem pré-certificação da Leadership in Energy and Environmental Design, um dos mais conceituados selos verdes do mundo. “Ele é um inovador, foi muito além do que se costuma fazer no Brasil”, afirma Silvia Manfredi, diretora da Associação Nacional de Arquitetura Bioecológica. “Outros prédios vendidos como ecológicos oferecem apenas coisas básicas, como árvores no jardim.”
Engenheiro civil, Valle fez carreira em empresas como a Encol e a Rossi. “Em 2003, quando completei 48 anos, passei por uma crise”, diz. “Percebi que precisava ganhar dinheiro com algo que me desse prazer e fizesse diferença para o mundo.” Então pensou na onda de sustentabilidade. Isso o ajudou como marketing e obrigou-o a adotar estratégias modernas para cortar custos. Valle usa três princípios da economia de escala. O primeiro é fazer prédios padronizados. Ele procura terrenos sob medida para seus projetos. O número de janelas ou a quantidade de cimento gasto é sempre igual. Assim, consegue fazer grandes pedidos e negociar descontos com os fornecedores. “Somos montadores de apartamento”, diz. O segundo princípio é ser rápido na venda e na construção. Cerca de 60% do empreendimento costuma ser vendido em 90 dias, e o prédio é concluído em aproximadamente 18 meses. Neste mês, Valle deverá entregar as chaves do primeiro residencial EcoLife, no bairro do Butantã, na zona oeste da capital paulista. Outros três estão em construção e mais oito deverão ser lançados até o fim do ano. Por fim, Valle diz que cortou o desperdício de materiais, com técnicas como a modulação dos prédios.
Ecologicamente correto
O que os prédios têm de diferente Medidores de consumo individuais Cada apartamento tem medidores individuais
de luz e de água para incentivar o consumo racional
Churrasqueira de lava vulcânica Aquecida com gás, a lava vulcânica fica incandescente e
substitui o carvão natural, que prejudica o meio ambiente
Pomar e herbário Cria um ambiente para
pequenos animais e pássaros, além de incentivar o convívio com a natureza
Coleta seletiva de lixo Há espaço para separar o lixo. Convênios com
cooperativas de catadores criam receita para o condomínio, com a venda dos produtos reciclados
Energia solar Uso de energia solar para preaquecer a água e
produzir energia elétrica nas áreas comuns do edifício
Água da chuvaAcumulada em uma unidade coletora, é usada para a
limpeza das áreas comuns do prédio e para regar os jardins.
Lâmpadas de baixoconsumo O uso de lâmpadas fluorescentes reduz
o consumo de energia elétrica.
Sensores de presença As luzes das áreas comuns só
acendem quando alguém passa.
Estação de tratamento de águaInstalada no subsolo,
reaproveita a água já usada para ser utilizada nas descargas e nos jardins.
Fonte:http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EDG78975-8056,00.html
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