Mas como reconhecer a posição dos fragmentos? Para isso, é preciso
lançar mão de uma “sonda”, isto é,
um pequeno
fragmento de DNA marcado
com isótopo radioativo ou com um radical que emite luz sob certas
condições. Sendo também um fragmento de DNA, a sonda contém uma
seqüência que complementa apenas um tipo de seqüência invariável já
conhecida presente no fragmento em estudo, o que permitirá a ligação de
ambos.
Com o uso de filme fotográfico, descobre-se a posição da sonda e,
portanto, do fragmento. No caso dos sítios unilocais - que só ocorrem
uma vez no genoma inteiro -, existem sempre dois “alelos”, pois as
células (exceto as reprodutivas) têm um par de cada cromossomo. Como os
alelos têm a mesma seqüência básica e tamanhos distintos, uma sonda
complementar a essa seqüência se ligará a ambos e eles aparecerão em
posições diferentes no filme fotográfico. Todas as pessoas recebem um
desses alelos da mãe e outro do pai.
Portanto, no teste de paternidade, basta comparar os alelos da mãe,
de seu filho(a) e do suposto pai, e a coincidência do alelo paterno do
filho com um alelo do suposto pai confirmará a paternidade “biológica”.
Quando se quer investigar apenas a identidade de uma pessoa (um
criminoso, por exemplo), é preciso comparar o padrão de polimorfismo de
amostras de DNA obtidas na cena do crime com os padrões de vários
suspeitos.
Síntese de fragmentos de DNA
Para detecção do polimorfismo, são usados iniciadores que flanqueiam
regiões do DNA onde existem repetições de nucleotídeos (em grupos de
dois, três ou mais). Isso significa que tais iniciadores delimitam a
síntese das novas cadeias ao trecho com as repetições, situado entre os
sítios aos quais eles se ligam. Tais repetições são chamadas de STR (do
inglês Short Tandem Repeats, ou “repetições curtas em série”), e as
regiões onde se encontram são conhecidas como “microssatélites”.
DNA mitocondrial
Além do DNA genômico, presente no núcleo das células, também há DNA nas
mitocôndrias, organelas situadas no citoplasma. Esse DNA é muito menor
que o nuclear e tem estrutura circular, que o torna mais parecido com o
das bactérias.
No contexto da análise forense, o interesse pelo DNA mitocondrial
surgiu por vários motivos: primeiro esse DNA também contém regiões
polimórficas que permitem sua individualização; segundo, os
descendentes recebem esse DNA apenas da mãe, o que permite traçar a
linhagem materna de uma pessoa; e terceiro, esse DNA é mais resistente
à degradação que o DNA nuclear. Assim, em grandes desastres (incêndios,
explosões, queda de avião, etc.), quando é mais difícil identificar os
corpos, analisa-se o DNA mitocondrial. Este é extraído dos restos
mortais e a seqüência de interesse é comparada com seqüências obtidas
de irmãos ou ascendentes maternos.
Grau de confiança do teste de DNA
Um ponto que tem gerado intensa discussão entre laboratórios e agências
de teste de DNA é o número de locos polimórficos necessários para
estabelecer de modo confiável a identidade e a paternidade. O índice
utilizado para as conclusões, tanto sobre a identidade de uma pessoa
como sobre a paternidade, depende do número de locos analisados. Para
chegar a um índice adequado, porém, é preciso levar em conta a
freqüência dos alelos na população: se eles forem muito comuns, os
resultados das análises serão no mínimo duvidosos.
Os grupos sangüíneos (A, B, O e AB) podem ser utilizados como exemplo.
Tais grupos, que dependem da combinação de alelos, distribui-se nas
populações do mundo com freqüências conhecidas. Na Alemanha, 46% a 48%
têm sangue tipo A. Já na Eurásia Central, Índia, Mongólia e Sibéria,
prevalecem o tipo B. Em nenhuma dessas regiões, portanto, esses grupos
sangüíneos poderiam ser usados isoladamente para identificar um
indivíduo, porque um grande percentual da população teria um ou outro.
É importante que os alelos investigados sejam raros.
No caso dos polimorfismos de DNA (RFLPs),as freqüências são bem
menores. Para exemplificar, vamos imaginar uma disputa de paternidade
no Rio de Janeiro em que o loco D10S28 seja usado como sonda,
permitindo obter, no suposto pai, um alelo que ocorre em
aproximadamente 2,8% da população carioca. Esse valor é muito alto se
considerarmos que a população da cidade é de cerca de 8 milhões de
habitantes. Para reduzir esse valor, é preciso pesquisar outros locos
no mesmo indivíduo. Imaginemos que uma segunda análise, usando o loco
D2S44, tenha revelado um alelo com freqüência de 7,28%, percentual que
indica a existência de 582.000 pessoas no Rio de Janeiro com este
alelo.
Mas quantos indivíduos teriam os dois alelos? Apenas 16.307. Tal
número é obtido através da multiplicação do inverso das duas
freqüências: 2,8/100 x 7,28/100 x 8 milhões. Usando mais um loco, a
análise indicará outra freqüência, permitindo reduzir ainda mais o
percentual. Na prática, o uso de cinco a sete sondas gera um valor
baixo o suficiente para que o resultado seja conclusivo.
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