Pouco sei de Jeanne de Araújo, a não ser que mora em Acari, Rio Grande do Norte e que conheci sua poesia porque ela ganhou um prêmio: 1° lugar do Prêmio Luís Carlos Guimarães 2006 , da Fundação José Augusto, de Natal.
Mais não posso dizer, se é
uma menina, uma mulher madura, uma senhora poemática. Mas acredito que o que vou mostrar apresenta Jeanne na sua melhor forma: crua, quase indigesta. Sincera, quase má. O poema a seguir é seu.
CANTARES
I
Porque aqui dentro tudo me cabe
espalho lótus pelos corredores.
Do outro lado da mesa
meu coração amadure espinhos
e já não sou essa quem sou
meu coração está plantando farpas.
O que antes era cortina e aconchego
caiu terrivelmente sobre mim
(sentimento que conheço de antemão).
Antecipo ciúmes e indagações.
A alma lateja, reveste-se de prece
o coração emudece nos corredores da boca.
II
Aprendo encantamento
com tuas poucas palavras.
Noites? São muitas
mas tu estendes a vigília
no vazio das horas mortas
até configurar-se no amor que me dás
e que não vejo.
Armadilha de pequenos sóis
envoltos em papéis de seda.
Deus está no perigo,
na hipótese da seta lançada.
Jamais sairia ilesa
deste teu escuro.
III
O anjo que me guarda
acordou cruel demais.
Postou filete de sangue na porta
parte de sua própria carnadura
e me trancou toda por dentro.
Saiu às ruas, em claro testemunho
e escreveu latente no portão: aqui jaz
Despiu-se da pele de anjo
cortou suas longas asas
e foi morar entre pernas
onde todo perfume é doce.
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