Para o homem mais humano do mundo não havia lugar... O Menino Deus poderia ter nascido direto no coração humano, porque na verdade quem precisa de salvação é a humanidade. Mas, Deus no
seu grande amor respeita o sim e o não dos filhos que ele fez. O estábulo embora em condições precárias está aberto para a chegada do Senhor. A humanidade dando vazão à sua concupiscência não tem lugar no coração para o nascimento do salvador. Isto me faz lembrar de uma parábola de origem pagã que pode iluminar esta relação entre estábulo e coração humano: “Deus, cansado do egoísmo das pessoas, reuniu seus conselheiros, e pediu opinião de como educá-las. Uns conselheiros recomendaram que Deus se escondesse delas por
um tempo. E foi difícil encontrar um lugar: na montanha mais alta? No fundo do oceano? No lado oposto da lua? E Deus insatisfeito, consultou um anjo o qual sugeriu: “se quer esconder-se das pessoas, esconda-se no coração delas”. Lá elas nunca vão, porque elas não abrem o coração, nele não há lugar, não encontram consigo mesmas e nem com o Senhor. E Deus, num gesto de acolhida: eu entendo, eu as criei para serem livres. Mas elas demoram muito para na liberdade, constatar, acolher e lidar com a presença da concupiscência no seu interior (vícios capitais): “orgulho ou soberba, inveja, ira, avareza, luxúria, gula, preguiça ou indolência espiritual, e cultivar as virtudes opostas aos vícios: humildade, caridade, mansidão, partilha, castidade, temperança, zelo espiritual”, (EE CECREI. Porto Alegre. 1966). Mesmo assim, vou manter minha paciência eterna, aguardando a abertura do coração delas, afim de que em cada festa do Natal que os cristãos celebram, meu Filho encontre um lugar para nascer. O anjo, entusiasmado exclamou: o Senhor é sábio. Jesus foi gerado pelo Altíssimo, numa jovem limpa e pura, mas nasceu num lugar imundo a fim de libertar o coração humano fechado e imundo. Fez do estábulo seu palácio, da manjedoura seu berço, e na missão não teve onde reclinar a cabeça. De espinhos teceram sua coroa, de uma vara fabricaram seu cetro, e a cruz foi seu trono, e leito de morte. Humilhação até às últimas conseqüências! Os presépios de hoje são como casa de campo, limpos, higiênicos e floridos. O presépio de Jesus, feito de quatro paredes toscas, um piso sujo, uma cobertura precária e escura, um estábulo sujo e mal cheiroso, localizado na periferia do mundo: retrato do coração humano. As Escrituras testificam que o nascimento de Jesus é uma humilhação. Deus se torna homem: o rico se faz pobre, o puro nasce em meio à sujeira e sua morte acontece na cruz. O apóstolo Paulo assim se refere ao nascimento de Jesus e ao seu ministério: antes, esvaziou-se a si mesmo, assumiu a forma de servo, se tornou semelhante aos homens (Fl 2,7). E, reconhecido em figura humana, pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos torne ricos (2a. Cor 8,9). Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele fossemos feitos justiça de Deus (2ª. Cor 5, 21). Se Deus faz Jesus nascer num lugar sujo como um estábulo, Ele também tem poder para fazer nascer Cristo no coração das pessoas. Diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim se tornarão brancos como a lã (Isaías 1,18). Escarlate e carmesim são cores fortes que não desbotam uma vez aplicadas no tecido. Os pecados são pagos e apagados desde a Manjedoura até à Cruz do Calvário, na pessoa de Jesus Cristo; e os que crêem recebem uma nova vestimenta: estes que estão vestidos de vestes brancas, quem são e de onde vieram? Estes são os que vieram de grande tribulação, lavaram as suas vestes alvejando-as no sangue do Cordeiro (Ap 7,13b e 14b). O nascimento de Jesus nos aponta para o cumprimento da promessa: ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mt 1,21). Esta é a razão da vinda de Jesus Cristo: salvar a humanidade dos seus pecados. O mundo inteiro está chamado para a salvação. Todos verão a salvação que vem de Deus (Lc 3,6). O canto dos anjos deixa claro que Ele é o salvador de todos (Lc 2,14). A alegria anunciada aos pastores é para todo o povo (Lc 2,10). Simeão toma o menino nos braços e diz estar vendo a salvação de Deus (Lc 2,19). Mas, a salvação de Deus exige a participação humana a qual se realiza através da abertura do coração para que nele o Senhor possa entrar e fazer sua morada. Isto acontece no momento em que a pessoa exclama: eu sinto falta de Deus. Eu tenho o procurado por todos os lados e descobri que Ele está dentro de mim. Por isso basta que abramos o coração e deixemos que o Senhor se manifeste com seu olhar terno e compassivo. A cartilha do presépio nos ensina a moldar o nosso coração segundo a simplicidade, a humildade, a pobreza, a ternura, a misericórdia, enfim, a caridade é o caminho. A salvação exige conversão e perseverança nela. Judite Delmassa
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