Quase posso me lembrar de cada pôr-de-sol que assisti da sacada do meu apartamento. Também, das noites estreladas que até
assustavam pela beleza, e das fortes chuvas que surgiam amedrontadoras e despencavam abençoadas. Só nunca me passou pela cabeça que, após anos, ali, testemunhando constantemente os espetáculos da natureza, pudesse presencear uma cena tão horrível como aquela.
Todo o prédio estremeceu sob meus pés, e diante dos meus olhos incrédulos, seguiu-se uma gigantesca bola de fogo que iluminou o céu, como um amanhecer desregrado. Fiquei paralizado por um tempo, vendo aquilo. Não sabia o que pensar tampouco o que fazer. A sequência foi ainda pior: gritos, motoristas desgovernados e pânico geral. Grudei-me apavorado à televisão em
busca das informações que logo vieram. Sabia que nada poderia fazer em meio ao caos cinematográfico que assistia, por isso nem desci até o local. Mas aquela noite também não consegui dormir...
Acompanhei atento por vários dias as matérias e os relatos sobre o acidente e, após muita reflexão quanto ao sofrimento alheio, tão próximo como nunca havia visto, decidi: precisava encontrar "Deus".
Independente da falha ter sido mecânica ou humana, ou seja, problemas "nossos", eu tinha que encontrar o
criador de tudo. Eu, um cético convicto, totalmente descrente de qualquer coisa além do palpável, em busca de algo que nem acreditava... Mas, não como uma arrogante exigência de explicação, e sim, um humilde pedido de esclarecimento. A tragédia vizinha me impulsionara a tentar compreender o porquê algumas pessoas haviam sido "milagrosamente" salvas por casualidades inacreditáveis, enquanto outras, estrategicamente, escolhidas para o fim. Apesar da minha descrença nas religiões, o gosto pela leitura abarrotara meus arquivos mentais. Em teoria, eu conhecia muito sobre as diretrizes de todas elas. No domingo, logo cedo, saí em busca..."Dele".
O primeiro local de minha cruzada foi uma gigantesca e magnífica construção do século XVII, luxuosamente decorada com objetos de muito valor; braço de uma das mais antigas religiões, uma poderosíssima instituição de complexa hierarquia e de grande influência política ao longo da história - até cruel em alguns casos. Ali ouvi, observei, meditei e...fui embora desanimado, com a sensação de contradição no peito. Todo aquele poder e ostentação, pareceu-me muito distante da simplicidade e humildade pregadas pelo Cristo que eles mesmos difundem. Ali me pareceu que eles falam como divindades, mas agem como mortais arrogantes e faltosos...
Parti para uma nova tentativa: um templo de dimensões igualmente faraônicas. Lá, milhares de pessoas gritavam e cantavam eufóricas sob o comando de um líder igualmente empolgado. Todos pareciam hipnotizados. O dinheiro corria como num mercado qualquer, por isso, naquele lugar, senti uma certa "quantificação comercial" da fé. Saí da agitação com a ruim sensação que as doces palavras de Jesus estavam sendo, ali, propositalmente distorcidas com fins lucrativos, em outros termos: sendo vendidas aos desesperados e carentes fiéis clientes...
Num pequeno, simples e silencioso ponto de reuniões, senti o suposto ambiente ideal para "o encontro". Nesse lugar, um senhor muito atencioso e de cultura explícita me ensinou, por horas, sobre resgates coletivos e dívidas com vidas passadas. Apesar de ter sido a explicação mais próxima de algo inteligente que eu ouvira até o momento, incomodou-me um pouco o exagero nas convicções. Não sei se explicar mistérios seja tão simples quanto lecionar história... Afinal, trata-se do "desconhecido", deve haver o momento certo para que a verdade desponte sem suposições...
Durante a incessante busca, ainda me deparei com crenças que impõem regras sobre roupas e até comprimento dos cabelos; outras que fazem uso de artifícios múltiplos, tais como: oferendas, alimentos e bebidas. Dentro do respeito máximo que sempre cultivei por tudo e por todos, afastei-me destas também. Afastei-me com a certeza de que uma entidade de luz, um ser superior, não deve dar tanta importância a detalhes tão pequenos, tão "terrenos"...
O domingo chegava ao fim. Eu estava exausto e... decepcionado. Onde estaria Deus? Onde eu encontraria aquele que, dizem, criou-nos à sua semelhança e cuida dos nossos rumos com muito amor? Aquele que, segundo diversos ensinamentos convergentes, deu seu filho por nós... Se tão poderoso, por quê o anonimato? Por que se esconder atrás das nossas dúvidas infantis?
A fome incomodou. Comprei um lanche e me sentei numa praça. Enquanto comia, olhava para o céu tentando ver para crer... só um mísero sinal! Quando percebi, havia um senhor ao meu lado. Sujo, maltrapilho e silencioso. Aliás, nem sei como se aproximou tão despercebido... Apesar do meu ceticismo, sempre fui atuante em relação aos necessitados. Sempre ajudei dentro do possível; por isso, ofereci-lhe a metade do lanche que me restava, supondo sua fome. Ele aceitou e comeu em silêncio. Antes de ir embora, o velho homem olhou fixamente em meus olhos e disse: "Abençoado seja,
filho!" Em seguida, desapareceu da mesma forma enigmática que surgira.
Em toda minha vida, jamais havia visto brilho tão intenso num olhar... Uma sensação indescritível percorreu minha alma, e lágrimas de alegria me desceram pelo rosto, pois na "simplicidade" de um pequeno fato, compreendi a insensatez das minhas dúvidas... e, pela primeira vez, eu pedi perdão a "Ele". Perdão pela minha visão saudável, mas egoísta por só enxergar o conveniente. E, principalmente, perdão por tentar buscar tão longe o que está sempre tão perto... Foi assim que "Ele" me reencontrou!