Dirigindo com o inimigo Dirigir nas grandes cidades pressupõe riscos. O ataque que sofri ontem, entretanto, foi mais surpreendente que ser assaltada por
uma velhinha fingindo-se de doente (a danada, que portava um 38, me levou o rádio, um CD do Chico – de
quem ela disse ser fã – e R$ 50). Se de toda
coisa ruim pode se tirar algo bom, dessa em particular surgiu um
amor romântico pelo que há de mais odiado e rejeitado em nosso tempo : o trânsito.
Tudo começou com uma sensação. Depois de cruzar a Av. Paulista, não estava sozinha no carro. Coisa de intuição. Pelo retrovisor, tratei de checar se meu filho, carente de mãe que trabalha fora, não havia se escondido entre bancos e porta-malas. Não.
Quando consegui, finalmente, desviar o pensamento do vigia inexistente, senti leve cócegas insistente no peito do pé, revestido apenas por uma sandália de dedos. Entre uma acelerada e outra, chacoalhei o pé para me livrar da sensação. Aí, o que era apenas impressão de olhar, materializou-se em som de bicho que voa. BICHO QUE VOA?
Mal tive tempo de pensar, e ela apareceu: uma barata enorme, voadora, assassina. Vidros fechados, ar-condicionado ligado, a repugnante, em segundos, bateu no vidro, em minha mão (ui, que nojo) avançou pelo meu cabelo, zigue-zagueando sua asquerosidade pelo carro. Já imaginou? Tenha empatia, porque isso pode acontecer com você também. Claro, freei impulsiva e bruscamente, atrapalhando o tráfego com
Um quase engavetamento quilométrico. Pulei do carro feito doida, estapeando a própria cabeça, com receio de que a maldita criatura fizesse ali seu esconderijo. Novo risco de atropelamento, atrapalhando o tráfego (desculpem-me a repetição, não consigo me esquecer o Chico roubado). Foi então que, sensibilizado, o motorista de trás veio socorrer-me. Eu, que só fazia gritar, vi e apontei para o bicho, agora estacionado em cima do volante. Meu herói soltou um grito ainda mais alto e fechou a porta do carro para que ela não voasse em nossa direção. Depois ele confessou: tinha mais medo de barata que da morte. Meu Deus. Nesse momento, a orquestra de buzinas diminui e a curiosidade tirou pelo menos uns cinco motoristas do carro. Uma senhora me ofereceu calmante, outro rapaz tirou o sapato a fim de esmagar a barata. “Não faça isso, como ela vai dirigir depois com aquela meleca no volante? Vai bater o carro!” – gritou um executivo. “Isso não” – gritou uma adolescente – “Não suporto ouvir aquele ‘crequi’ de barata pisada”. “Pior é que ela voa, caso contrário, poderíamos jogá-la para fora do carro e deixá-la à própria sorte de atravessar a Paulista em horário de pico, isto é, morrer atropelada.” Naquela loucura, enquanto um plano era arquitetado para matar a nojenta sem nos matar de nojo, uma emoção nova tomou-me da cabeça ao pé trafegado por barata: eles eram desconhecidos. Motoristas enlouquecidos pela pressa de São Paulo parados ali para ajudar outra desconhecida: eu. Veio-me à memória, então, um filósofo francês que escreveu algo mais ou menos assim: a virtude é uma força que age, ou que pode agir. Assim a virtude de uma planta ou remédio é tratar, de uma faca é cortar. A de um homem é querer agir humanamente.
Era essa cena a que eu assistia. A da virtude humana manifestada em cada rosto preocupado em livrar-me de uma barata. Que alívio, não somos capazes apenas de intolerâncias com fechadas e setas não dadas. O individualismo ainda não nos possuiu por completo. Há, sim, viva nossa inclinação de – por mais piegas que possa parecer – fazer o bem, ter empatia com o sofrimento alheio e nos ajudar mutuamente para um bem não tão comum: salvar a humanidade de uma barata voadora.
A barata, minha nossa! Aquela barata era, então, uma heroína, um anjo! Não podia morrer... Mas seria abusar da humanidade do povo se, naquela altura, pedisse para salvá-la. Quem morreria seria eu.
A solução veio de um senhor meticuloso que, com um saco plástico, abriu a porta devagarzinho e capturou a voadora feito borboleta. Amassou o saco para o urrgh! geral, seguido de grito de vitória e uma salva de palmas frenéticas dos espectadores. Com quase emocionado acenar de mãos, despedimo-nos cúmplices do amor que pode nascer até se semeado entre cimento e asco.
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