Outra noite estava eu dormindo e
lendo o imenso livro A New History Of
Jazz, de Alyn Shipton. Na taça ao
lado, três dedos do bastante honesto Cabeça do Pote:
um tinto 2001 das
lusas Terras Durienses, encontrado por compreensíveis R$20,00 nos
mercados de Vila Velha e cercanias. Acordando num susto lancinante ouvi
a mulinha do e-mule berrar, com aquela sua assustadora voz de
mula-robô: tranferido Tete Montoliu, The Music I Like To Play, Volume
1. Olhei desconfiado:
piano solo ? .Não
esperava grande coisa de um
pianista espanhol cego tocando jazz
sem cozinha. Mas confesso a boa surpresa ao ouvir, entre uma ou duas dúzias
de clichês da música erudita européia, um pianista cheio de excelente
técnica e profundo swing. Se é que podemos fazer tal tipo de análise,
ele me soou como uma espécie de Red Garland possuído pelo espírito de
Bud Powell. Colorido, veloz e preciso sem perder a emoção..Passeando
por clássicos populares, como Don''t Smoke Anymore, Alone Together ou
Whisper Not, Tete convence até aqueles que, como eu, não apreciam beber
um tinto ao som de 50 intermináveis minutos de piano solo. Recomendo
ambos, piano e livro, embora Shipton não faça qualquer referência ao
grande pianista espanhol em suas quase mil páginas de boa história.
Merecia ser citado. Recomendo sem ressalvas.
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