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Resumos e revisões curtas

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Baixa de Lisboa

por : MarioMiguel    

Autor : Mário Miguel
Muita gente trabalha no coração da Baixa Pombalina. Muitos mais a terão já visitado. Chegam de manhã, à tarde ou à noite,
por aqui se quedam um dia, talvez dois. Poucos ficam semanas, meses, anos. Poucos ouvem os gritos revoltados das suas entranhas quando a azáfama amaina e menos ainda respiram o estertor subcutâneo que sibila com a vinda da noite, de todas as noites, mais e cada vez mais agoniante.
No último ano, cerca de cinquenta lunáticos recensearam-se na Junta de Freguesia de São Nicolau (a junta que abrange o ”rectângulo” central da Baixa Pombalina). Poucos terão nascido por aqui e quer-me parecer que foram mais os que faleceram. Mesmo acreditando que alguns não se terão recenseado (que sejam uma dúzia mais), o Grémio ganhou apenas mais uma dezena de equipas para jogar à sueca.
O coração da baixa pombalina parou de bater há muito, declare-se a sua morte. Tudo é muito velho e dá um trabalhão preservá-lo, chateia muita gente. Viver na baixa não é para todos, requer uma cultura europeia antiprovinciana. Requer que se tenha viajado pela Europa de olhos bem abertos para se poder comparar realidades e misérias; que se abandone o automóvel; que se tenha vontade de subir muitas escadas; que se seja interventivo; que se participe nas assembleias de junta; que NUNCA se dêem esmolas; que se denunciem as antenas parabólicas nas fachadas dos edifícios e as constantes agressões ao património; que se saiba viver com os carros estacionados em cima de passeios sem os esmurrar; que se oiça o queixume do comandante da polícia sobre a falta de homens; que se respire uma poluição brutal; que se compre nas mercearias; que se ignorem as ofertas de haxixe na Rua Augusta.
Demasiado complicado. Esqueçam. Os lisboetas gostam de casas maiores, mais baratas e sem infiltrações, na periferia. Os tempos mudaram. Serão cada vez menos os alfacinhas a morar por aqui e ainda bem. Que sejam substituídos por magotes de ingleses e espanhóis, e por muitos milhares de turistas alojados nos vários hotéis que têm ainda de renascer dos prédios devolutos.Só há portanto uma solução para o coração da Baixa Pombalina: Turismo. Cada ano são mais, não obstante a decadência geral. Importa pois preservar o património arquitectónico e os monumentos, permitir que sejam visitados até mais tarde e aumentar o preço dos bilhetes, organizar festivais, festas e animações (os lisboetas da periferia gostam de folia e também virão), varrer as ruas, varrer os oportunistas das ruas, deixar os artistas.
Vendam-se edifícios a estrangeiros e convidem-nos para dirigir instituições, porque não a Câmara.
Que não se tema o que já acontece em todas as Páscoas, nas principais ruas da baixa: não de ouve falar português. Tal como em Veneza, onde é quase impossível encontrar um veneziano, também na baixa será difícil encontrar lisboetas.
A beleza e unicidade desta zona da cidade não nos pertence, pertence ao mundo. A decisão que a maioria dos habitantes da cidade tomou, ao deixar o centro, é irreversível e não mudará. A julgar pelo estado em que deixámos estas fachadas, em que estão as praças, as ruas e os edifícios, e observando que as únicas lojas, mercearias e restaurantes abertos a partir das 20h são geridos por multinacionais estrangeiras ou cidadãos de outras origens, eu dou graças a Deus por ter sido assim.
Doravante, o coração da Baixa Pombalina cumprirá a ambição maior pensada pelo seu criador: receber o mundo e servi-lo, longe do povo virulento que o violou, que ainda o viola.
Chega de lamúrias.
Publicado em: junho 05, 2007
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