IRMÃ TERRA
O desequilíbrio proporcionado pelo ser humano à natureza é patente e patético. Impulsionados pela ganância e pelo poder, homens e mulheres estabelecem a cada dia o risco da ausência do futuro ao manipular e consumir a Terra. É evidente que nas relações estabelecidas com o planeta todos estamos perdendo. Há uma relação desproporcional e perversa entre a retirada e a restituição. A perda das florestas é maior que a capacidade de reposição florestal. A perda de água potável é superior a reposição de águas. Estamos pescando mais peixes e crustáceos que o mar, em seu ciclo natural, é capaz de prover. Não há excedentes. Estamos perecendo.
Longe de uma previsão apocalíptica é preciso ressaltar que a permanência de tal devastação traz consigo efeitos inevitáveis. A atual política de destruição, emoldurada aparentemente pela necessidade humana, é desastrosa. Se por um lado ouvimos falar em "desenvolvimento sustentável"; é urgente denunciar o "empobrecimento insustentável", mesmo porque o atual modelo extrativista impõe a desagregação social-econômica e a degradação ambiental, percebidas explicitamente, por exemplo, na região amazônica.
Ao contrário do que muitos imaginam, tais realidades afetam diretamente a vida nos grandes centros urbanos. Assim, como também é verdade que o comportamento nas cidades atinge a dinâmica rural. Estamos falando de água, ar puro, alimentação e trabalho, elementos intrinsecamente ligados não apenas à cadeia econômica, mas às relações entre homens e mulheres em todos os cantos do país e do mundo com suas dinâmicas familiares, profissionais e religiosas.
A espiritualidade cristã está alicerçada na imagem do Criador. Tudo o que existe foi estabelecido a partir da divina capacidade criativa e criadora. Terras, animais, pessoas, frutos e mares expressam a generosidade da partilha para com o ser humano. É por isso que a percepção das expressões de Deus entre nós são fundamentais à saúde ecológica.
A Terra é ecumênica. Nela residem adolescentes, jovens, adultos, negros, indígenas, budistas, cristãos, sindicalistas, educadoras, ativistas, héteros, gays, lésbicas, agricultoras, negociantes, palestrantes, políticos, entre tantos. O planeta que compartilhamos juntos é morada e responsabilidade comum. É necessário, neste sentido, um profundo respeito ao diálogo e à disposição de agir pelo cuidado mútuo e pela convivência com os demais seres viventes. A ausência de uma compreensão e prática equilibradas sobre o bem-estar comum tem proporcionado o avanço do egoísmo e da morte. Uma atitude generosa de inclusão ambiental revela o valor singular da prática ecumênica - a casa é de todas as pessoas.
Na atual situação em que vivemos, as palavras e ações do Cristo são reveladoras. A sensibilidade de Jesus e sua profunda disposição em confrontar a exploração do ser apresentam-se como referenciais de uma fé em transformação. Se cremos no milagre da vida e em seu valor absoluto não há outra alternativa. É preciso compreender, discernir e dispor-se para transformar o mundo. A fé criativa é a substituição do caos pela beleza e harmonia expressas na natureza - liturgia da vida.
Ao lado de São Francisco de Assis podemos celebrar o cântico do irmão sol: "...todo louvor te seja dado, meu Senhor, através da Irmã Lua e das estrelas; nos céus tu as criaste, radiantes, preciosas e bonitas...todo louvor de seja dado meu Senhor, pela Irmã Terra, nossa mãe..."
À irmã Dorothy e aos que sonham por uma novo planeta vale recordar a oração das Nações Unidas pela Terra: "Nós nos juntamos à Terra...e uns com os outros, com nossos ancestrais...e com todos os seres do futuro, para trazer nova vida à Terra...para recriar a comunidade humana, prover justiça e paz...lembrar-nos de nossos filhos, lembrar-nos de quem somos..."
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