Stein, E.
Aproximações sobre Hermenêutica. Porto Alegre. Coleção
Filosofia, vol. 40. Edipucrs.1996.
Aproximações
sobre Hermenêutica é apresentada pelo próprio autor, Ernildo Stein, como resultado de sua experiência e visão pessoal sobre o tema. Em linguagem quase coloquial, em primeira pessoa, sob uma revisão ortográfica visivelmente apressada, o autor preenche, em uma nota introdutória e sete capítulos, pouco mais de cem páginas para registrar suas idéias sobre o posicionamento da hermenêutica enquanto forma de descoberta e abertura intelectual, bem como sua utilidade filosófica e histórica. A seguir, procurei escrutar o conteúdo da obra segundo as premissas de E. Stein para se realizar um investigação hermenêutica completa e apropriada. Obviamente, dentro dos limites característicos de uma resenha acadêmica e não artística. E, dado o caráter pessoal do texto e do próprio tema, seria por demais complexo separar o discurso do resenhista do discurso do autor, do que me abstive sem nenhum escrúpulo e conto com a compreensão hermenêutica do leitor.
Nota introdutória. Nesta introdução E. Stein apresenta seu intuito de contribuir, em forma de livro, suas considerações sobre a ligação entre a fundamentação (a justificação de nossas proposições) e a racionalidade (comportamento racional), expressada em forma de linguagem formal-discursiva e hermenêutica. Esta "ligação", a racionalidade hermenêutica, é o ponto de partida e o objetivo do autor em suas aproximações através da argumentação filosófica e do debate metodológico das ciências humanas.
Chegamos aos objetos pela linguagem. Com extremo cuidado de linguagem, o autor inicia o capítulo relacionando duas condições de racionalidade, argumentando que as ciências falam (de) dentro do mundo enquanto que a
filosofia fala sobre o mundo. Mas para o desenvolvimento da hermenêutica filosófica, devem ser ultrapassados dois corredores comuns: o da razão e o da lógica para seguir caminho através da linguagem, enquanto ela é o mundo sobre o qual falamos, posto que não falamos do mundo a não ser falando da linguagem. Neste caminho, o autor demonstra que o objeto das ciências é delimitado enquanto o objeto da filosofia não pode ser delimitado. E na medida em que a filosofia trata o mundo como linguagem, Stein argumenta que mundo e filosofia (linguagem) compartilham da mesma estrutura de algo como algo. A racionalidade humana só tem acesso ao mundo, aos objetos, via conceito, via significado, via linguagem. Mas este acesso, enquanto lógico-formal, é limitado e dependente de um contexto pressuposto de compreensão e de interpretação. O ser humano não tem acesso pleno ao objeto a não ser via significado. Algo como algo é a estrutura de nossos enunciados porque a estrutura do mundo é algo como algo. Nossa compreensão tem a estrutura de algo como algo. A linguagem traz em si um duplo elemento, um elemento lógico-formal que manifesta as coisas na linguagem, e o elemento prático de nossa experiência do mundo anterior à linguagem, mas que não se expressa senão via linguagem, este elemento é o como e o logos hermenêutico. Citando Heiddeger, há o como hermenêutico, do mundo; e o como apofântico, do discurso. A racionalidade é ambígua e por isso, a compreensão e a hermenêutica são formas sábias da consciência filosófica para acesso ao mundo.
O logos hermenêutico.
Estrutura do sentido e sentido da estrutura. Enquanto no capítulo anterior E. Stein parece ser muito cuidadoso com as palavras, respeitando e delineando seu discurso com respeito à tradição ocidental, permanecendo dentro de uma linha lógico-formal, neste capítulo ele passa a ter estilo crítico próprio, característico até o final em tratar a hermenêutica filosófica como detentora do poder de compreender a compreensão humana. Pois filosofia não trata de objetos, mas trata do modo como os objetos se dão, trata das condições de possibilidades já que não existe experiência sem mediação da linguagem. E por este motivo a idéia do sentido é o tema principal da hermenêutica. Além dos mitos dicotômicos de mundo ideal e mundo real, do mundo pensado e do mundo vivido, surge o mundo da compreensão onde sujeito e objeto se fundem numa mesma estrutura de sentido. Ao ler um texto e ver a forma estruturada de suas proposições, compreendemos o texto, apanhamos o sentido da estrutura. Quando um ser fala, articula sempre aquilo que é condição do discurso, da palavra, sob forma de estrutura do sentido. Por isso a palavra sentido é uma espécie de código fundamental da hermenêutica. A filosofia enquanto filosofia hermenêutica procura uma base para os processos cognitivos humanos que se dão na linguagem e diz que existe, desde cedo, um processo comum a todos os seres humanos que lhes permite se comunicar através de uma linguagem, através dos discursos que trabalham com enunciados e que esta condição de possibilidade de comunicação vem da compreensão que faz parte do modo de ser do homem, dada como estrutura prévia de sentido. Além de seres biológicos, somos no mundo compreensão. E a partir daqui as ciências humanas adquirem sua importância no mundo, em relação ao limites das ciências naturais, por se moverem num espaço de discurso para lá do discurso lógico-semântico.
A autonomia da hermenêutica e o iluminismo. Sobrevoando contextos diferentes, E. Stein da rasantes sobre a trajetória histórica da tradição hermenêutica em paralelo com a trajetória do iluminismo. Das três tradições de linguagem ocidentais, lógica grega, teologia medieval e humanismo do renascimento; a hermenêutica representa a ponta da tradição humanística. Em vez da construção de uma linguagem definida pela lógica ou pela perfeição, se inicia a criação de metáforas postas a partir do universo humano. O nascimento da tradição hermenêutica, a introdução das metáforas, do universo dos sentidos e da história conceitual, libertou o universo humano do determinismo que se infiltrava através de concepções ontológicas e também ideológicas. O iluminismo acompanhou a independência da hermenêutica, na medida em que a vemos como produção histórica que se utiliza de um discurso especializado identificado por suas metáforas tiradas da tradição histórica e literária. E. Stein destaca o movimento iluminista como um contraponto do movimento da tradição hermenêutica, enquanto o primeiro cuidava de emancipar o ser humano através da razão objetiva ao criticar as ontologias conservadoras, a hermenêutica acompanhava o processo das idéias, livre de conceitos rígidos, sem a pretensão de saber mais do que a ciência. E, enquanto a tradição iluminista perde sua força, a tradição hermenêutica superou a si mesma e passou a delinear um novo universo e uma nova consciência do lugar do homem na cultura e na história.
N.R.: Observação leve: em relação o capítulo anterior, senti falta de uma abordagem menos dicotômica e um pouco mais relacionada à filosofia da ciência como contraponto da filosofia hermenêutica. Da situação hermenêutica e do compreender. Neste capítulo, E. Stein inicia o leitor no mundo e no léxico heideggerianos. E demonstra a antecipação deste autor na concepção hermenêutica dos tempos modernos com sua nova terminologia, como por exemplo a definição de situação hermenêutica como a espécie do lugar que o investigador atinge através de instrumentos teóricos que tem à disposição para a partir dele realizar a avaliação de um campo temático. E. Stein decanta a obra Ser e Tempo e o projeto de Heidegger - analisar o processo da compreensão humana sempre sobre dois aspectos: o lógico-semântico e o hermenêutico. Neste capítulo percebemos que a construção do livro Aproximações sobre Hermenêutica é um reflexo e não exatamente uma reflexão sobre a obra de Heidegger e detectamos que a "situação hermenêutica" de E. Stein repousa sobre o novo sentido da filosofia como ontologia fenomenológica universal que parte da hermenêut