Em A República, Platão fala do anel de Gyges, que tornaria aquele que o
veste invisível. Quem respeitaria as regras
com tal poder? Que tipo de
imperativo moral interno este usuário teria que ter para não sucumbir à
tentação de abuso desse poder?
Na história, podemos facilmente
aprender que não é razoável contar com este autocontrole. Indivíduos
que acumularam poder em demasia normalmente abusaram dele. O poder
corrompe – eis um fato. Por isso que civilizações avançadas encontraram
meios para limitar a concentração de poder e adotaram um império da
lei. As
leis devem ser isonômicas, válidas igualmente para todos,
buscando assim evitar a arbitrariedade dos governantes. Infelizmente,
esta não é, nem de perto, a realidade brasileira. Aqui os governantes
concentram poder demais, de forma arbitrária. Seus amigos ficam acima
das leis, impunes, enquanto os inimigos sofrem o rigor de leis mal
interpretadas, possível pelo excesso de ambigüidade delas.
Isso
explica porque 32 criminosos do MLST foram soltos. Eles haviam sido
presos após invadirem e depredarem o Congresso, chegando a mandar um
segurança para o hospital. Além desses baderneiros receberem verbas
federais milionárias, contam com o apoio do governo para ficarem acima
das leis. O líder do movimento, Bruno Maranhão, é amigo pessoal do
presidente Lula e ligado ao Partido dos Trabalhadores. Segundo os
procuradores, o juiz que ordenou a liberação desses criminosos teria
recebido documentos da Ouvidoria Agrária Nacional, ligada ao governo
federal. Ao que tudo indica, essa turma do MLST, acusada de formação de
quadrilha e lesões corporais graves e leves, está livre por pressão do
próprio governo, que deveria ser o maior guardião da lei. E ainda
chamam isso de “movimento social”. Nenhum país pode dar certo dessa
maneira.
A impunidade é, provavelmente, o maior mal que assola
nossa nação. Os “mensaleiros” não só andam soltos por aí, como muitos
serão candidatos novamente. Delúbio Soares, Marcos Valério, José
Dirceu, Waldomiro Diniz, nenhum desses está preso. O crime compensa. Os
governantes vestiram o anel de Gyges. São invisíveis perante as leis.
São intocáveis!