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Impressoes Digitais geneticas

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Resumo de : Esperancinha
Visitas : 1169  palavras: 900   Publicado em: abril 03, 2007
Se observarmos duas pessoas quaisquer que estejam sentadas numa determinada esplanada a tomar o seu café enquanto desfolham um jornal num Domingo em que o Sol se espreguiça de Verão, pelo menos duas coisas saltam aos nossos olhos: as duas pessoas apresentam traços fisionómicos diferentes que permitem distingui-las facilmente; as duas pessoas estão provavelmente a ler o mesmo jornal em páginas diferentes, dependendo das suas diferentes personalidades ou consoante o seu interesse e/ou curiosidade. Caso as duas pessoas sejam dificilmente distinguíveis fisionomicamente numa primeira observação superficial, por exemplo no caso de serem gémeos homozigóticos (clones naturais!), uma investigação mais atenta e pormenorizada poderia permitir encontrar uma diferença, ainda que estejam a ler a mesma página do jornal. Poderíamos estender a análise a todas as pessoas presentes nessa esplanada e verificaríamos que as dissemelhanças ou parecenças fisionómicas permitiriam distingui-las mais ou menos facilmente. Poderíamos até tentar agrupá-las por famílias (pais, filhos, avós, etc.), apesar de podermos ser de vez em quando surpreendidos por falsas aparências. Haverá então algum método que de forma segura nos permita identificar, distinguir e estabelecer laços de parentesco não só entre cada uma das pessoas presentes naquela esplanada mas entre todos os seres humanos do planeta?             Sabemos que os genomas (conjunto de todos os genes) de todos os indivíduos humanos são iguais em cerca de 99.9%. Apenas os restantes 0.1% de diferença na sequência dos genes são responsáveis e permitem gerar a incontável variação de fisionomias e características que os indivíduos da espécie humana apresentam. De entre as diferenças genéticas que cabem naqueles 0.1%, foram identificadas sequências muito repetitivas no genoma humano, designadas por microsatélites, que apresentam uma grande variabilidade entre indivíduos diferentes. Mais em pormenor, podemos definir um microsatélite por extensões de sequências de DNA que se caracterizam por repetições emparelhadas de uma sequência simples de bases, como por exemplo, a sequência CAT (Citosina-Adenina-Timina) repetida 15 vezes consecutivamente. A análise por metodologias de Biologia Molecular do genoma de dois indivíduos que não possuam um laço de parentesco próximo mostrará que eles possuem uma grande variação no número e na sequência de microsatélites em determinadas localizações (locus) dos seus genomas. Por intermédio da PCR (ver texto Novo método de amplificação de DNA) é possível detectar o número de repetições de microsatélites em diferentes locais (loci) do genoma e estabelecer um grau de distinção ou de proximidade entre os dois indivíduos que probabilisticamente não pode ser devido a uma mera coincidência. Aliás, em ciência não existem coincidências, elas são indícios da nossa ignorância sobre determinado assunto!             A análise dos microsatélites é o cerne de uma técnica que detecta a variabilidade genética inter-indivíduos e que se designa, em termos gerais, por “impressão digital genética”. Esta técnica que foi descoberta há vinte anos atrás (1984) pelo britânico Sir Alec Jeffreys na Universidade de Leicester, no Reino Unido, encontrou inúmeras aplicações em diversos campos do conhecimento para além do da Biologia Molecular. É desde então cada vez mais usada nas ciências forênsicas, permitindo identificar suspeitos implicados em crimes através da análise de amostras diminutas de sangue, cabelo, sémen, etc. Outra aplicação socialmente importante tem sido a sua utilização decisiva para determinar relações de paternidade. Surgiram, entretanto, implicações éticas associadas ao potencial uso abusivo desta técnica, como é exemplo a constituição de bancos de dados genéticos dos indivíduos eventualmente indiciados de terem cometido crimes, mesmo que tenham sido julgados inocentes. A identificação da origem de determinados alimentos também tem sido possível pela utilização desta técnica, pela comparação entre o DNA do alimento em análise e o da origem de onde se suspeita que o alimento provém. Por exemplo, é possível identificar se uma determinada carne de vaca proveniente da América do Sul tem como origem o Brasil ou a Argentina. Não menos importante foi o facto desta técnica ter permitido investigar cientificamente a alvorada da Humanidade e a sua diáspora, isto é, a separação e migração efectuadas pelas diferentes populações de humanos prímevos desde África (onde a espécie humana surgiu) até às diferentes localizações actuais. Funcionando como um marcador molecular, a leitura por esta técnica das mensagens implícitas nos microsatélites presentes nos genomas de cada um permite mostrar quão surpreendente é a nossa proximidade com aquela outra pessoa na esplanada e conciliarmo-nos, numa mesma origem de fraternidade, com todos os seres humanos de todos os tempos imemoriais que tiveram a oportunidade de ver este Sol brilhar.

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