O nosso genoma é constituído por 46
cromossomas que contêm DNA e que estão presentes no núcleo de todas as nossas células somáticas, isto é em todas as células que compõem o nosso corpo, exceptuando aquelas que são utilizadas para a reprodução, os óvulos e os espermatozóides, que só têm 23 cromossomas. Quando ocorre a fecundação do óvulo por
um espermatozóide cada um dos grupos de 23 cromossomas associam-se aos pares. Isto decorre de uma forma coordenada de modo a que os cromossomas do óvulo e do espermatozóide que contêm o mesmo tipo de “informação” genética para uma determinada característica ou função ficam emparelhados. Assim, o cromossoma que contêm a informação genética que recebemos da nossa mãe, por exemplo, para a cor dos olhos, “fica” emparelhado com o cromossoma que recebemos do nosso pai que contêm informação sobre essa mesma característica. Da interacção entre essas duas informações sairá o resultado final. Durante muito tempo os cientistas pensaram que toda a substância genética que recebíamos dos nossos pais era aquela que estava contida no dois conjuntos de 23 cromossomas. Mais tarde, descobriu-se que um pequeno compartimento em forma de grão que se designa por mitocôndria, que existe no interior das nossas células e que é responsável, entre outras coisas, pela final transformação de açúcares numa forma de energia utilizável pelas células, também contêm informação genética num cromossoma único. Então, como o óvulo e o espermatozóide também contém mitocôndrias, poderíamos receber assim mais informação alguma informação genética para além daquela presente nos já referidos 23 pares de cromossomas. Sobre isto há uma outra história curiosa: durante muito tempo pensou-se que só a cabeça do espermatozóide, que contêm os 23 cromossomas, entrava para o interior do óvulo, ficando a cauda de fora. Recentemente, cientistas demonstraram que a cauda também é internalizada! Isto é importante, uma vez que, entre outras coisas que também têm um papel importante no desenvolvimento do futuro embrião, as ditas
mitocondrias paternas encontram-se fundamentalmente na cauda “fornecendo” a energia química necessária para o espermatozóide “nadar” até ao óvulo. Se a cauda não entrasse para o interior do óvulo, só as mitocôndrias da mãe seriam “transmitidas” ao embrião e com elas a informação genética nelas contida. Com a cauda também entram as mitocondrias do pai. Contudo, hoje sabemos que só as mitocondrias do óvulo “sobrevivem” depois da fecundação, sendo as do espermatozóide aparentemente destruídas pelo óvulo! Assim, a informação genética total que recebemos dos nossos progenitores estaria resumida aos 23 pares de cromossomas e à informação genética contida no cromossoma das mitocôndrias maternas. Mas pelos vistos há mais qualquer coisa... Uma equipa de cientistas liderada por Stephen Krawetz, da Universidade de Wayne State, em Detroit (Estados Unidos), publicou na revista Nature um artigo (G. Charles Ostermer, et al., Reproductive biology: Delivering spermatozoan
rna to the oocyte, Nature, 2004, 429, 154) no qual divulgou que o espermatozóide contribui com mais algum material genético do que aquilo que se pensava. Os investigadores identificaram seis moléculas de RNA mensageiro (o RNA mensageiro é um tipo de material genético que intervém na tradução para proteínas da informação contida nos genes) tanto no esperma como no óvulo fecundado e que não foram encontradas em óvulos não fecundados. Deste modo, os cientistas concluíram que o espermatozóide introduz moléculas de RNA mensageiro no óvulo contribuindo assim com mais informação genética aquando da fecundação. Esta descoberta pode revelar-se importante para um melhor conhecimento dos primeiros acontecimentos após a fecundação, uma vez que as moléculas de RNA mensageiro provenientes quer do óvulo quer do espermatozóide poderão desempenhar um papel importante na orquestração do desenvolvimento do ovo fecundado e consequentemente do embrião.
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