Como começou? E como é possível que os primeiros sinais de alarme tenham vindo do mundo dos créditos e das
instituições financeiras com ênfase no setor de empréstimos? O crédito é um ingrediente essencial para o bom funcionamento da economia. Mas concedido largamente e barato, é uma droga que afunda. O crédito fácil é a origem da crise. Durante anos endividar-se foi cômodo e conveniente. O dinheiro pego como emprésimo foi investido em títulos financiários que cresceram de valor até formar uma bolha “especulativa” a ponto de explodir a qualquer hora. E foi o mercado imobiliário americano a dar passagem à crise quando os preços das casas caíram pelo efeito do encarecimento dos empréstimos.
Mas além da crise dos grandes bancos e instituições financeiras americanos com reações em cadeia, quais as outras razões que levaram a um clima de desconfiança? Há um emaranhado de desequilíbrio na origem da crise que compromete até as relações econômicas internacionais. A China exporta muito mais do que importa, e os Estados Unidos, segue a linha inversa. Pequim pode acumular grande capital com o qual “financiou” o bem-estar americano, comprando títulos de Estado de Washington. Mas isso não pode durar eternamente. Se a taxa de câmbio entre os dois países não se ajustar, até esta bolha explodirá.
Esses desequilíbrios produziram a queda dos mercados, a pouca credibilidade e a recessão. Gasta-se menos por temor aos rumos futuros. Os cidadãos perceberam que em um ano pelo menos a economia não crescerá, e nem os salários. Muitas pessoas podem perder seus postos e empresas serem fechadas.
Qual foi a reação dos governos e das autoridades para enfrentar a emergência? E quando as injeções de capital darão o efeito esperado? Não é possível prever a retomada. Primeiro salvaram os fundos públicos e a grande maioria dos bancos internacionais. Exceto o Lehman Brothers. Depois usaram o dinheiro dos contribuintes com o objetivo de sustentar a economia. Houve alívio fiscal generalizado e ajuda as famílias mais pobres para favorecer o consumo, subsídio a quem está sem trabalho, facilidades às empresas que investem, gastos públicos para construir infra-estrutura (estradas, ferrovias, escolas). Concomitantemente os bancos centrais reduziram as taxas de juros e os juros de mercado nao estão adequados, mas estão baixando.
A mensagem aos operadores é clara: as empresas dispostas a investir e as famílias que queiram comprar carros e eletrodomésticos novos podem aproveitar de condições vantajosas, com menos taxas e um custo de dinheiro igual ou quase a zero para quem investe ou compra a débito.
Todas as medidas tomadas seriam suficientes para reconfigurar a real economia? Não. Segundo economistas as intervenções não contrastam a recessão. Outros sustentam que para derrotar a crise de hoje não é aconselhável comprometer o equilíbrio de fundo da economia: acumular tantos débitos significa impor ao contribuinte de amanhã um ônus complementar que se traduziria em menor crescimento e bem-estar futuros.
Estas duas visões se refletem até nos comportamentos dos governos. O americano, o Inglês e o Francês parecem mais decididos a não danificar fundos públicos para evitar danos irreversíveis à economia. Os bancos e as grandes empresas devem sobreviver a crise. Sem um sistema financeiro eficiente e sem importantes pólos produtivos as economias não se desenvolvem. O governo alemão tem uma atitude diferente.
Nas atuais condições indicar saídas para o desenvolvimento e a superação da crise é impossível, o que devemos esperar de 2009? Por hora a intervenção pública obteve efeitos. A atividade desascelerando onde quer que seja, freiando aos países em forte crescimento, como a China. Ordens em queda, produção caindo, falência e desocupação aumentando caracterizarão o 2009. Otimistas confiam em uma retomada no fim do ano. Mas depende da confiança, mola decisiva para superar os momentos difíceis. E ela se restaura quando as pessoas tiverem a percepção que a reviravolta está pra chegar. Aí começarão a investir e consumir, a olhar para frente para garantir um futuro melhor, deixando aquela prudência que as guiou nas fases mais duras da crise.