Por: Jaime Nunes Mendes
O Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda insere-se no contexto histórico do monopólio do comércio açucareiro pelos ibéricos, e o início da concorrência européia, especificamente, pelos holandeses. Ao criar a Companhia das Índias Orientais, a Holanda aparelhava-se para enfrentar a concorrência de Portugal e Espanha que, em 1580 uniram-se formando a União Peninsular sob o domínio dos Habsburgos. O Sermão, portanto, foi escrito no último ano da dominação espanhola, ou seja, em 1640.
De início o Sermão faz alusão a um trecho dos Salmos da Bíblia, em que o autor, pressionado pelas circunstâncias, muito mais que clamar, ‘‘exige’’ de Deus um livramento imediato: ‘‘Desperta! Por que dormes, Senhor... Levanta-te em nosso auxílio, e resgata-nos por amor das tuas misericórdias’’. E Vieira faz uso da mesma passagem bíblica para fazer um paralelo à situação enfrentada pelos portugueses com a invasão holandesa.
Prosseguindo o Sermão, Vieira menciona outra passagem bíblica, na qual o autor faz menção às vitórias conquistadas pelos hebreus no passado, por exemplo, a conquista de Canaã e a libertação da escravidão egípcia: ‘‘Ó Deus, nós ouvimos com os nossos ouvidos, e nossos pais nos têm contado os feitos que realizastes em seus dias, nos tempos da antigüidade’’. Desta forma, Vieira confronta o texto bíblico aos grandes feitos, às proezas e conquistas dos portugueses, das quais o Brasil é conseqüência. Ele atribui a Deus todas as vitórias de Portugal, o que eqüivale afirmar que Vieira comparou as grandes realizações de Portugal com as conquistas que os antigos israelitas empreenderam para se estabelecerem à Terra Prometida: ‘‘Vossa mão foi a que venceu e sujeitou tantas nações bárbaras, belicosas e indômitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras... e estendeu em todas as partes do mundo, na África, na Ásia, na América’’. Desta forma, é possível deduzir que, na visão de Vieira, foi Deus quem colaborou o tempo todo com os portugueses, por conseguinte, foi Ele quem auxiliou Portugal a expulsarem os mouros da Península Ibérica; foi Ele quem contribuiu para que Portugal conquistasse Ceuta, a Ilha de Madeira, Açores, Cabo Bojador, Guiné, Calicute... e o Brasil, nas suas próprias palavras: ‘‘a miserável província do Brasil’’. E se foi Deus quem os ajudou, então é perfeitamente justificável a expulsão dos ‘‘nativos indômitos’’, a sujeição das ‘‘nações bárbaras’’ e o despojo do domínio de suas próprias terras. É a idéia de que Deus ofereceu Portugal ao mundo, para que esse desse o mundo ao próprio Deus. Deste modo, a colonização é justificada como sendo a vontade de Deus, pois estariam levando ‘‘a verdadeira’’ religião aos bárbaros e ingênuos indígenas, ao negro e ignorante etíope desprovido de conhecimento.
Coteja os portugueses com Israel, quando em peregrinação no deserto, e utiliza, para exemplificar a situação de seu povo, uma passagem bíblica na qual os israelitas questiona os desígnios de Deus, afirmando ser melhor ter permanecido como escravos no Egito a morrerem pelos próprios egípcios no avassalador deserto: ‘‘Dirão que, cautelosamente e à falsa fé, nos trouxestes a este deserto, para aqui nos tirares a vida a todos e nos sepultares’’. E queixando-se perante Deus, afirmou, de maneira até ousada, que melhor fosse nunca ter conquistado o Brasil para o próprio Deus a ter que padecer cruelmente nas mãos dos pérfidos, dos insolentes, dos excomungados e ímpios hereges, como chamava os protestantes, especificamente os holandeses. E conclui a sua indignação, quase que forçando Deus a agir a favor dos portugueses: ‘‘...antes da execução da sentença repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração, enquanto é tempo; porque melhor será arrepender agora que quando o mal passado não tenha remédio’’.
Muito mais do que questionar a vontade de Deus, Vieira o ironiza: ‘‘Holanda vos dará os apostólicos conquistadores que levem pelo mundo os estandartes da cruz?...os pregadores evangélicos que semeiam nas terras dos bárbaros a doutrina católica?... defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana?... Edificará altares?... consagrarás sacerdotes?... ’’.
O conceito de supremacia da Igreja católica em relação às demais religiões, é evidenciado em todo o Sermão. Desta maneira, os portugueses não só detinham o monopólio das terras brasileiras, como desejavam ardentemente manter o da fé: ‘‘...só a fé romana que professamos, é fé, e só ela a verdadeira e a vossa’’. Apresenta-se diante de Deus, contrapondo a excelência da religião católica sobre as religiões protestante. O ataque aos holandeses é a reação contra os calvinistas que, por serem protestante, colocavam sob suspeitas muitas das doutrinas católicas.
Ante uma iminente invasão dos hereges, dos inimigos da ‘‘verdadeira igreja’’, o Padre Vieira sente-se abandonado por Deus: ‘‘...parece que nos deixastes de todo e nos lançastes de vós, porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneais como dantes os nossos exércitos’’. Eles, os portugueses estavam tão habituados às conquistas, que a idéia de serem vencidos pelos inimigos significava o abandono por parte de Deus, que os entregou ‘‘às mãos da crueldade herética’’, ‘‘dos hereges insolentes’’.
É interessante observar que ao se dirigir a Deus, Vieira não o faz com súplica e deprecações , mas com protestos e repreensões: ‘‘... Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos da vossa providência e mudais as leis da vossa justiça conosco...’’. Deus é posto como uma espécie de árbitro da futura contenda entre portugueses e holandeses. Em muitas situações, volta-se piedosamente atrevido diante de Deus: ‘‘...Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto?’’.
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