.
Análise 8. Linguagem em “Primeiras Estórias”
justify; line-height: 150%; text-indent: 27pt; margin: 0cm 0cm 0pt;">
normal;">Linguagem em “Primeiras Estórias”
justify; line-height: 150%; text-indent: 27pt; margin: 0cm 0cm 0pt;">
Sobre a linguagem, o primeiro comentário a fazer é o de que João Guimarães Rosa, ao reinventar o sertão e viyificar cada polegada de suas paisagens, cada ser que as habita, reinventa, também, a linguagem do universo que nos desvenda. E esta linguagem é tão viva quanto as personagens do livro, sempre em travessia em direção a algum tipo de aprendizagem.
Assim, o escritor incorpora em sua linguagem o ritmo da poesia do sertão, com suas boiadas, suas folhas e flores, seus bichos, plantas e homens.
As onomatopéias, as aliterações, as passagens de pura poesia, a transfiguração literária da oralidade, da fala dos capiaus e dos seres da natureza, os ditados populares, as cantigas, as estórias folclóricas, os neo-logismos, os arcaísmos, enfim, os recursos que permitem a transposição artística da cultura popular, primitiva e ancestral dos confins das gerais constituem os elementos mais importantes da linguagem de Primeiras Estórias.
A eles acrescentamos a presença de metalinguagem, de discurso indireto livre, além da fusão entre poesia e prosa, entre cultura popular e cultura erudita, que fazem deste artista um dos principais recriadores da linguagem literária deste século.
Na opinião de Antonio Candido, Guimarães Rosa, ao reinventar o mundo, reinventando a linguagem que o expressa, cria um universo autônomo, "composto de realidades expressionais e humanas que se articulam com harmonia, superando por milagre o poderoso lastro de realidade tenazmente observada, que é a sua plataforma" (citado por Paulo Rónai, em "Os Vastos Espaços", apresentação de Primeiras Estórias, Rio de Janeiro, José Olympio, 1975).
Vamos perceber a pulsação das palavras de Primeiras Estórias, os seus ritmos, as suas metáforas e alegorias, e também a sua dimensão metafísica, mitopoética, lendo algumas das passagens mais expressivas da obra.
Ultramuito, porém, houve o que há, por aquela parte, até aonde o luar do meu mais longe, o que certifico e sei. A casa-rústica ou solarenga-sem história visível, só por sombras, tintas surdas: a janela parapeitada, o patamar da escadaria, as vazias tarimbas dos escravos, o tumulto do gado? Se eu conseguir recordar, ganharei calma, se conseguisse religar-me: adivinhar o verdadeiro e real, já havido. Infância é coisa, coisa?
A Moça e o Moço, quando entre si, passavam-se um embebido olhar, diferente do dos outros; e radiava em ambos um modo igual, parecido. Eles olhavam um para o outro como os passarinhos ouvidos de repente a cantar, as árvores pé-ante-pé, as nuvens desconcertadas: como do assoprado das cinzas a esplendição das brasas. Eles se olhavam para não-distância, estiadamente, sem saberes, sem caso. Mas a Moça estava devagar. Mas o Moço estava ansioso. O Menino, sempre lá perto, tinha de procurar-Ihes os olhos. Na própria precisão com que outras passagens lembradas se oferecem, de entre impressões confusas, talvez se agite a maligna astúcia da porção escura de nós mesmos, que tenta incompreensivelmente enganar-nos, ou, pelo menos, retardar que perscrutemos qualquer verdade. Mas o Menino queria que os dois nunca deixassem de assim se olhar. Nenhuns olhos têm fundo; a vida, também, não.
"Nenhum, Nenhuma"
De volta, não queria sair mais do terreirinho, lá era uma saudade abandonada, um incerto remorso. Nem ele sabia bem. Seu pensamentozinho estava ainda na fase hieroglífica. Mas foi, depois do jantar. E - a nem espetaculosa surpresa - viu-o, suave inesperado: o peru, ali estava! Oh, não. Não era o mesmo ... < ... > Tudo se amaciava na tristeza. Até o dia; isto era: já o vir da noite. Porém, o subir da noitinha é sempre e sofrido assim, em toda a parte. O silêncio saía de seus guardados. O menino timorato, aquietava-se com o próprio quebranto: alguma força, nele, trabalhava por arraiga raízes, aumentar-lhe a alma.
“As Margens da Alegria”
Referência bibliográfica
ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. 15.ed..São Paulo: Editora Nova Fronteira, Impressão especial FDE-SP 2008