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Shvoong Home>Livros>Discursos>Análise 6. Estórias Metafísicas

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Análise 6. Estórias Metafísicas

por : magnus2    

Autor : João Guimarães Rosa

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Os contos "Soroco, sua Mãe, sua Filha"; "A Menina de Lá"; "Nenhum, Nenhuma" "Nada e a Nossa Condição"; "Um Moço muito Branco"; "A Terceira Margem do Rio” e" Pirlimpsiquice".


Nestas oito estórias que finalizam os conjuntos de enredos que criamos, os principais elementos comentados nas demais estão presentes, sobressaindo se nelas uma dimensão"metafísica, também característica de toda a obra; razão pela qual podemos utilizá-Ias para concluir estes comentários.


Em "Soroco, sua Mãe, sua Filha", a loucura desencadeia a comunhão e a solidariedade entre as pessoas, o que também ocorre com os empregados em relação aos patrões, em "O Cavalo que Bebia Cerveja" e "Tarantão, Meu Patrão".


Por outro lado, "A Benfazeja" tematiza a loucura amaldiçoada, renegada, enquanto "Darandina" apresenta a loucura satirizada. "O Espelho", por sua vez, pode ser interpretado como a loucura "cientificamente" provada, se entendermos esta palavra como negação da razão convencional, e, além disso, como revelação de saberes por ela marginalizados.


"A Menina de Lá", "Um Moço Muito Branco" e "Nada e a Nossa Condição" enfocam a relação entre a loucura e a santidade; a primeira como que provocando a segunda.


Em "Pirlimpsiquice" e "Partida do Audaz Navegante" a loucura indelimita as fronteiras entre arte e vida, fantasia e realidade, provocando o instante que se prolonga, "sem começo e sem fim ... ".


Estas estórias têm como agentes da loucura e, portanto, da santidade, do dom de fazer milagres e de poetizar a existência seres que podemos chamar de "hieroglíficos", utilizando terminologia do próprio texto: são os desmemoriados, os transitórios, as crianças ...


Acaso, sina, fatalidade, astúcia ou simplesmente mistério, o fato é que da loucura destes seres "de exceção" brota o amor ("Seqüência", "Substância", "Luas-de-Mel"), a justiça ("Os Irmãos Dagobé", "Famigerado", "Fatalidade"), a fantasia dos "desmedidos momentos" ("As Margens da Alegria", "Os Cimos", "Pirlimpsiquice", "Partida do Audaz Navegante").


Em "A Terceira Margem do Rio", o filho identifica-se com a escolha do pai, mesmo sem compreendê-la, intuindo-a sem saber dizê-la, por medo, culpa ou, ainda, por ser ela "o insolitíssimo". Tal escolha aponta para o indizível, o infinito metaforizado pelo fluir das águas nas quais o pai faz a sua travessia, sem parar em nenhuma das duas margens, mas buscando uma terceira, aquela que não existe mas há ... numa outra dimensão, que transcende o viver comum, embora seja criada por ele.


Assim, a expressão "terceira margem do rio" parece-nos habitar todas as estórias de que falamos, na medida em que configura o seu universo ancestral. mitopoético, primitivo e encantado, onde a realidade transforma-se em magia, a vida converte-se em arte, o cotidiano se apaga, para dar lugar à poesia ...


Finalmente, em "Nenhum, Nenhuma" o tom de "era uma vez" dos contos de fada funde memória e imaginação, trazendo de um limbo que se localiza na sabedoria popular, arquétipos provenientes do território do simbólico, do maravilhoso, que também se distribuem na totalidade da obra. Neste território reside a memória não individual, mas coletiva; a sabedoria mítica e metafísica que povoa os imemoriais enredos de João Guimarães Rosa.



Referência bibliográfica


ROSA, João Guimarães. Primeiras Estórias. 15.ed..São Paulo: Editora Nova Fronteira, Impressão especial FDE-SP 2008


Publicado em: julho 30, 2009
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