Feliz Ano Novo é
um livro indispensável para conhecer o mínimo a respeito de Rubem Fonseca, este extraordinário contista e romancista do Brasil. Trata-se de
contos publicados em 1975. Meses após a primeira publicação, o governo militar que assolava o Brasil com seu autoritarismo naquela década proibiu a circulação do livro. O ministro Armando Falcão, repsonsável pela censura, disse do livro o seguinte: "Li pouquíssima coisa, talvez uns seis palavrões, e isso bastou". Um senador ligado aos militares declarou sobre
Feliz Ano Novo que "Suspender foi pouco. Quem escreveu aquilo deveria estar na cadeia e quem lhe deu guarida também. Não consegui ler nem uma página. Bastaram meia dúzia de palavras. É uma coisa tão baixa que o público nem deveria tomar conhecimento". Julgamentos houve, favoráveis e contrários, a
Feliz Ano Novo e seu autor. Porém, de ambos os lados o livro recebia o calor dos radicalismos. Apenas em 1989 o público brasileiro pôde adquirir nas livrarias novos
exemplares de
Feliz Ano Novo, que, evidente e merecidamente, gozou de grande sucesso. Toda a polêmica levantada por estes contos de Rubem Fonseca tem razão de ser. Pela primeira vez, a literatura brasileira retratava a vida de um país urbano, industrial e crescentemente sob influência da cultura internacional através da comunicação de massa. Com suas desigualdades históricas, o Brasil começa, nos anos 70, um longo mergulho na violência social e na pobreza que repercute até os dias de hoje. Rubem Fonseca consegue, com seus contos, perceber um país de linguajar vulgar, de práticas criminosas tão próximas, em que a vida começa a valer muito pouco, em que personalidades verdadeiras sucumbem ante o poder do dinheiro e da máquina de exclusão social. Não obstante, sua composição não revela amargor. Ao contrário, o aparente descaso com que narra casos de violência extrema (que nos faz lembrar de Laranja Mecânica, em certos momentos) serve sim para desnudar a facilidade com que o Brasil de então, como o de agora, adere ao cinismo e à hipocrisia. Não se trata de um livro de lamentações, e sim de um retrato fiel. Leva às últimas conseqüências esta fidelidade ao real. Não é à toa que vários dos contos de
Feliz Ano Novo foram incluídos na antologia Os 100 Melhores Contos Brasileiros do Século 20, organizada pelo professor Ítalo Morriconi.
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