As palavras são usadas demais, sem terem, às vezes, objectivo de sair da boca, outras vezes, sem que alguém se aperceba que
elas saem. Este livro parece-me ser conduzido por esse assunto. Numa das páginas, por exemplo, o escritor fala da criação e da ilusão memória.
Pedro Paixão pega numa ideia e com uma breve descrição de um situação actual caracteriza-a, o que, por isso, torna a escrita muito particular. "Agora sou eu a falar" é o exemplo dos nossos diálogos que não são mais que monólogos ou preenchimento de tempo, ou egocentrismo, como também é ilustrado no texto "Fica querida com um beijo que não passe", sobretudo no seu terceiro parágrafo. São situações quase cómicas, mas não irreais. Eu achei, na sua leitura, que a décima quinta história poderia ilustrar os finais dos meus romances reais da adolescência e juventude.
Sublinho do texto "O menino" duas frases interessantes: "Lá por ser mais fácil falar do que subir uma escadaria com uma mala de 10 Kg, isso dar-nos-à o direito de estar sempre a falar?" e "Qualquer delícia que dure mais de algumas horas mostra o que o inferno de facto é."
Evidencio, da história intitulada "Ele", a ideia de que "as pessoas entranham-se em nós e isso embora assustador, sabe-nos bem".
Pedro Peixão utiliza a palavra Possuir para o sexo. Os ambientes são preenchidos com cama, livros e cigarros, como situações de alguém dormir ou ir/vir de dormir.
Do léxico usado neste livro desconhecia o significado de palavras como: sefarditas, asquenazis...
Um livro pouco volumoso, actual e estimulante.