Vejam que lindo texto o grande escritor Affonso Romano de Sant’Anna escreveu. Encantando com as letras como nunca, e levando o leitor ao clima do texto. Suavemente vai descrevendo as sensações afloradas pelo dom mágico e imaginável do
anão de Marraquesh.
O anão de Marraquesh
Por Affonso Romano de Sant’Anna
Em Marraquesh há um anão que ensandece as
mulheres. Elas vão ao banho (dizem aos maridos) fazer limpeza de
pele mas algo a mais ali sucede, basta ver como depois além do
corpo a
alma lhes vai leve. O segredo deste anão está guardado na palma de sua mão pois com seus dedos sabe sublimar as mulheres. Elas vêm e ele com silencioso gesto pede que se dispam-se despem. Se ele
dissesse: voem voariam, se dissesse: dancem, dançariam, se dissesse: amem-me o seu mínimo corpo amariam. Mas pede apenas que larguem suas vestes e se deitem à espera que suas pequenas
mãos se agigantem e abram portas, janelas desvãos abismos na vertigem da viagem dentro da própria pele. Quando se despem despedem-se dos maridos e já não mais carecem de amantes é como se Penélope convertida em Ulisses nas mãos do anão a Odisséia sentisse. Ninguém sabe exatamente o que seus dedos operam. Começa pelos pés e algo vem subindo devagar ao leve toque que não toca, que roça, às não fere, que solicita e impera e vai em círculos como se o bem e o mal se transcendessem numa espiral de delícias.
Os maridos e parceiros ficam no hall do hotel bebendo uisque, nas quadras jogando tênis e nunca saberão o que ocorreu ao leve toque daquelas pequenas potentes , suaves mãos.
Finda a massagem (nome conveniente à transfigurante viagem) as mulheres reaparecem translúcidas, caminhando a um centímetro do chão irrompem inalcançáveis como se tivessem tido uma visão. Aos maridos não adianta qualquer explicação. Há na pele da alma delas algo de que jamais se esquecem: o irrepetível toque dos dedos e das mãos do anão de Marraquesh.
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