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Solfieri

Summary rating: 4 stars 14 Avaliações
Review by : TatianaFerreira
Visitas : 351  palavras: 600   Publicado em: março 19, 2008
O conto Solfieri é uma obra que caracteriza bem as marcas que o estilo de Byron trouxe ao trabalho ultra-romântico de Álvares de Azevedo e de uma forma bem extremista.
O conflito entre os sentimentos de amor e morte, que geralmente se apresentam na forma de morrer de tanto amar, ou seja, a morte como alternativa de aliviar a dor de um amor (como, por exemplo, nos poemas “Este inferno de amar” de Garret ou no “Se se morre de amor” de Gonçalves Dias), não aparece nesse conto como uma relação hipotética (eu prefiro morrer a sofrer de amor), mas concreta já que Solfieri ama na verdade a própria morte personificada em uma mulher morta de fato.
Outra característica do conto típica das obras ultra-romantismo é a evasão para o sonho, mas não é como os sonhos que tem as pessoas que dormem de verdade (como o próprio Byron diz em seu poema Trevas “Eu tive um sonho que não era em tudo um sonho”), mas sim uma atmosfera onírica criada que se mescla com a realidade, e que no final nos levam a questionar entre o que era real e verdadeiro do que era delírio e fantasia. Quando Solfieri, por exemplo, relata a mulher que encontrará da primeira vez, isto nos leva a duvidar de sua existência, uma vez que ele próprio afirma que sem saber se tinha dormido, amanheceu por algum motivo no cemitério. Ao narrar os acontecimentos através de uma seqüência de detalhes permeados de aspectos sombrios e nebulosos, quando ele mesmo se vê em dúvida, ele tenta achar provas no local que o convençam (e também o leitor) de que tudo aquilo fora verdade (“a criatura pálida não fora uma ilusão: as urzes, as cicutas do campo-santo estavam quebradas junto a uma cruz”).
Mas lembramos que Solfieri era boêmio e poderia ter parado lá movido pela embriaguez. No segundo acontecimento não há duvidas quantos seu estado ébrio (“sei apenas que a cabeça me escaldava de embriaguez. As taças tinham ficado vazias na mesa: aos lábios daquela criatura eu bebera até à última gota do vinho do deleite...”). Estas lembranças contadas seriam, portanto, sonhos fruto das alucinações de um embriagado ou uma estranha realidade? Estes fatores levam até seu amigo Bertan fica com as mesmas dúvidas do leitor (Solfieri, não é um conto, isso tudo?).
O escritor Edgar Allan Poe, considerado mestre do horror psicológico, também apresenta características em suas obras, das quais muitas se relacionam com as obras de Álvares de Azevedo. As personagens de poe aparecem de forma doentias, obsessivas, fascinadas pela morte, vocacionadas para o crime, seres que oscilam entre a lucidez e a loucura, vivendo numa espécie de transe; no caso do conto de Álvares de Azevedo, Solfieri é obcecado pelas imagens e acontecimentos que não sabe se são reais e a fascinação pela morte o leva encontrar o amor na própria morte.
Outro fator que caracteriza os contos de ambos escritores e que acentua a dúvida a respeito do real acontecimento dos fatos é a ausência de testemunhas: Solfieiri, nos dois momentos da narrativa, estava só (“Eu passeava a sós pela ponte”). No conto de Poe “Nunca aposte sua cabeça com o Diabo”, seu companheiro morre e a outra personagem que aparece seria o próprio diabo, em “A queda da casa de Usher” não só as personagens envolvidas morrem como a própria casa, cenário dos acontecimentos, desaparece sem deixar vestígio . Todos estes fatores acentuam o mistério que envolve os fatos, deixando sempre em dúvida até onde termina a realidade e começa o fantástico.

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