Lembro-me muito bem de como tudo se passava. Minha mãe tinha que fingir-se zangada. Eu saia de casa, rente à parede.
Mestre Finezas puxava um banquinho para o meio da loja e enrolava-me numa enorme toalha. Só me ficava a cabeça de fora.
Como o tempo corria devagar!
A tesoura tinia e cortava junto das minhas orelhas. Eu não podia mexer-me, não podia bocejar sequer.
- Está quieto, menino - repetia
Mestre Finezas segurando-me a cabeça entre as pontas duras dos dedos: - Assim, quieto!
Os pedacitos de cabelos espalhados pelo pescoço, pela cara, faziam comichão e não me era permitido coçar. Por entre as madeixas caídas para os olhos via-lhe, no espelho, as pernas esguias, o carão severo de magro, o
corpo alto curvado. Via-lhe os braços compridos, arqueados como duas garras sobre a minha cabeça. Lembrava uma aranha.
E eu - sumido na toalha, tolhido numa posição tão incómoda que o corpo me doía - era para ali uma podre criatura indefesa nas mãos do mestre Ilídio Finezas.
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