A irara Risoleta (papa-mel), para se livrar de Manuel Timborna, conta-lhe uma história que vira. A história era assim:
Estava ela na
beira da
estrada, observando, quando viu um
carro-de-
boi.
À frente dele
vinha o menino Tiãozinho. Logo após, os bois Buscapé e Namorado, na testeira. Capitão e Brabagato, um de cada lado deles. Dançador e Brilhante, mais atrás, com Realejo e Canindé ao lado deles.
Atrás dos bois vinha Agenor Soronho, homenzarrão ruivo, mal-encarado, com uma vara com ferrão na ponta para espetar os bois.
No carro uma carga de rapadura preta com um defunto por cima, pai de Tiaozinho, o guia-mirim, morto no dia anterior.
Da beira da estrada, a irara observava a
caravana e ouviu os bois conversando, tramando a morte de Agenor Soronho, que os espetava o tempo todo com o ferrão.
O menino, por sua vez, pensa também que seria bom se ele crescesse e matasse Agenor Soronho, que tomara o lugar de seu pai, desposando sua mãe, e era demasiado ruim para ele.
Depois de algum tempo, Agenor Soronho dorme. Os bois matutam: "se ele cai, ele morre". O menino dorme também, andando. Mas grita com os bois e eles correm. Agenor Soronho despenca. Dorme pesado nem sente a roda do carro passar no pescoço, quase separa a cabeça do corpo. O menino chora muito.
Dois homens que passam a cavalo ajudam o menino. Colocam o corpo sobre as rapaduras. O menino conduz o carro, agora com dois defuntos. Não usa ferrão para espetar os bois. Por isso eles andam tranqüilos, tranqüilos... felizes da vida. Afinal, Agenor Soronho era mau. O menino é bom.
Assim, a irara Risoleta termina sua história. A gente só não fica sabendo o que acontece com ela depois. (O autor não diz.)
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