A cascavel deu o bote e
Carminho correu para Alzira, gritando. Foram duas horas de agonia e
dor. Finalmente,
apertando o rosto da mãe contra o seu, ele fechou os
olhos.
A fazenda Anhaçu fica a um dia de Boa-Vista, a
progressista capital de Roraima. É bonita de ver. Um mundo de igarapés
a circundeia. Ao longo de seus campos sempre úmidos pelas chuvas,
crescem imensos buritizais. Alzira gostava daquele cheiro de mato.
Sentia-se radiante quando saía a cavalo, com Carminho na garupa. A
mágoa, o rancor, a culpa, o medo, todos os pesadelos que a atormentavam
noite e dia, desfaziam-se enquanto ela galopava a esmo pela magnífica
paisagem.
Só naqueles instantes esquecia o passado: os
anos felizes de sua pré-adolescência no Rio de Janeiro e o tempo cruel em
que ficou no baixo meretrício de Boa-Vista, durante quase toda sua
gravidez.
Alzira vivia em Anhaçu há dez anos. Nela, Carminho
nasceu. Foi um momento de muito pânico, mas também de gratidão, quando
o bebê deslizou por suas pernas e, estapeado pela água fria do riacho,
choramingou. Alzira olhou para as árvores ao seu redor, para o céu e
agradeceu. A Natureza tinha feito seu parto.
Carminho cresceu
como um caboclo. Aos sete anos, conhecia cada pedaço de chão de Anhaçu
e das terras vizinhas. Era um menino esperto, inteligente. Olhos
castanhos, grandes, iguais aos da mãe.
Há duas semanas,
Alzira tinha feito planos. Ia levá-lo para Boa-Vista. Lá, ele faria o
primário e o ginásio. Depois, ela daria um jeito de mandá-lo para o Rio
– segundo grau, faculdade. “O garoto”, pensou, “seria publicitário,
como o pai”.