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Shvoong Home>Livros>Contos & Novelas>Checov - o russo que abalou a literatura

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Checov - o russo que abalou a literatura

por : RuiWerneck     

Autor : Rui Werneck
 
RESUMO: CHECOV – O RUSSO QUE ABALOU A LITERATURA
Checov,
escritor russo, segundo muitos o maior
contista que o mundo jamais produziu,
teve a pachorra de acumular frases para orientar outros escritores. Fui lendo
várias das 99 frases que um outro escritor teve a pachorra de compilar em
livro. Lá pelas tantas, dei com uma frase que estremeceu o ar do quarto. Veja
só: “Deus
meu, não permitas que eu julgue ou fale do que não conheço e não compreendo.”
Na primeira passada, tudo bem. Dá idéia de que ele acredita que um escritor só
deve escrever sobre o que conhece e compreende. Mas, ao ler de novo, vê-se que
a frase começa com ‘Deus’. Quem conhece Deus? Ninguém. Quem julga as ações de
Deus? Milhões. A frase, pra mim, ficou bastante interessante. Será que Checov
não tinha dúvidas de quem seria Deus? Achava conhecer Deus a ponto de pedir
proteção contra desconhecimento e julgamentos? Por mim, acredito que só sei se
conheço alguma coisa quando termino de escrever. Se eu só escrevesse sobre o
que conheço, estaria em plena lua minguante. Alguém disse algo que me
interessou mais: “Se eu soubesse como meu livro termina, não precisaria escrever”. Ou,
como dizia Alain Robbe-Grillet: “Escrevo para saber por que escrevo.”
Seguindo em frente, Chekov
afirmava que o conto não deve conter nada supérfluo. Cortar fora impiedosamente
tudo o que não tiver relação com a história. E vai adiante dizendo que o autor
nunca deve descrever emoções que ele mesmo não tenha experimentado. Corto fora
isso que ele disse. O supérfluo é um respiradouro e as emoções estão no ar.
Perco-me em supérfluos porque o essencial é inviável e as emoções caras ou
baratas crescem como chuchu na cerca. A verossimilhança, a verdade, o peso, os
enfeites de cama, mesa e alma... tudo isso é tão antificção! Desça quantos
graus quiser a temperatura da solidão, a escrita aquece. O crepitar das
palavras impregna o ar de perfumes evocativos, o ruge-ruge que o atrito das
frases produz é música suave e envolvente. A minha cota do cotidiano é
efervescente, frenética e estremecedora quando se rebelam as palavras. Enquanto
isso, as pessoas estão negando a cadeia dos seres vivos e recusando a idéia de
ascendência ou posteridade. Sabe o que isso significa? Estão engravidando a
delícia de viver em casulo. Sem tato, olfato, paladar e olhar. A couraça, a
falta de horizonte, o estofo apenas virtual forrando as emoções. As pessoas
colocam o perfil na internet, com foto e tudo. Mas, fogem na hora do encontro
real. Dão mil desculpas, citam filhos, compromissos inadiáveis, forças terríveis.
Estão tomando calmantes, pedindo receitas para dormir, pegando dezenas de
filmes nas locadoras. Rezam para que seja inventada a vacina contra a decepção
do encontro – mas jamais a tomariam. Preferem cortar o encontro do cardápio e
se entupir de imaginação, de contos de fadas, de invenção de padrões
espirituais ideais e de companhia de cães e gatos. Gente é de carne e osso.
Gente tem cacoetes, algumas manchinhas na pele, um jeito de sorrir diferente.
Gente pensa. Gente discorda. Gente tem desejos. Gente quer dar as mãos, trocar
carícias e carinhos. Não, gente não! 
Aí foi um pouco do grande
contista russo e logo terei mais novidades. Espero que tenha gostado, que vote,
comente e dê nota. Obrigado, Werneck
Publicado em: setembro 29, 2007

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