Clarisse abriu os olhos, mas não tinha vontade alguma de se levantar.Queria ficar ali, olhando para o teto descascado. Mas era preciso juntar forças e ir para o escritório.
A água escorria para o ralo enferrujado, levando sua pouca auto-estima, enquanto ela ensaboava o corpo franzino.
Dentro do antigo guarda roupas, era fácil escolher entre as peças quase todas no mesmo estilo e côres desbotadas.
Dando duas voltas na chave Clarisse sai a caminho do ponto de ônibus.
Vencendo o primeiro desafio do dia ela chega ao escritório e em meio a risadas e conversas
seu tímido "bom dia" se torna completamente inaudível.
A distância da sua mesa de trabalho lhe parece inalcançável.
Clarisse liga seu computador e entre uma tarefa e outra, se corresponde com um homem pela internet.
Agora ela é Maria Clara, alta, loira, seios fartos e boca carnuda.
Maria Clara diz coisas que fazem Clarisse corar.
Se houvesse alí um espelho, ela veria a transformação do seu rosto, mas Clarisse nem percebe a nudez dos seu joelhos no cruzar e descruzar de pernas de Maria Clara.
Ao desligar o computador, Maria Clara se vai e Clarisse segue pelas ruas com sua velha bolsa pendurada nos ombros encolhidos.
Sozinha, olhando para o teto descascado, ela fecha os olhos.
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