O Sr. e a Sra. Lerebour moravam em uma casa circundada por um belo jardim que abrangia um pátio, alguns quiosques chineses
e uma pequena estufa nos fundos da propriedade. A esposa do Sr. Lerebour, que se chamava Palmyre, estava sempre aborrecida. Mas ele, Gustave Lerebour, não deixava por nada seu bom humor. Havia alguns anos que Sr. e Sra. Lerebour não mantinham um bom relacionamento, pois Palmyre andava sempre irritada e áspera como se tivesse algum desgosto secreto. Embora contrariado, Gustave não perdia a alegria com os insultos da mulher. Apenas indagava-se sobre qual seria o motivo de tanta agressividade e algumas vezes chegou mesmo a perguntá-la, ao que ela respondia que não era nada e, se tivesse algo errado, sua obrigação era adivinhar. As noites eram muito desagradáveis, pois ela aproveitava para zombar dele e criticá-lo por estar muito gordo. Fazia-o levantar para procurar objetos que ela havia escondido. Algumas vezes ela acordava queixando-se de dores no estômago e exigia massagens. Ele, preocupado, queria chamar Celeste, a empregada, para ajudá-la. Então, ela se zangava e mandava-o dormir novamente. Certa noite ela o acordou assustada, tinha ouvido barulho de passos. Ele não deu importância ao fato, mas como ela levantou-se e foi para perto da porta, segurando as tenazes da chaminé, em atitude agressiva, ele achou que deveria ir também. Esperam durante vinte minutos, mas nada aconteceu. Voltaram a dormir. Na noite seguinte, Palmyre ouviu novamente o barulho. No início Gustave não acreditou, mas depois ele mesmo escutou e pode ver um vulto de branco em seu jardim. Gustave pegou o revólver de dentro da secretária e foi ver o que se passava, não dando importância aos pedidos da mulher para que ficasse. Palmyre esperou cinco, dez, quinze minutos e nada. Ficou aterrorizada achando que haviam matado seu marido. Tocou a campainha do quarto de Celeste, mas ninguém respondeu. Quando faziam quarenta e cinco minutos que seu marido saíra do quarto e ela acreditava que não tornaria a vê-lo, ele deu duas batidas leves na porta e pediu que ela abrisse. Palmyre estava furiosa com a demora, mas ele apenas ria. Foi aos poucos contando que vira Celeste encontrar-se com alguém na estufa. A primeira reação da mulher foi querer demitir a empregada. O marido, inesperadamente começou a beijá-la com sonoridade no pescoço. Ela, paralisada de espanto, deixou-se arrastar de mansinho para a cama. Eram nove horas da manhã quando Celeste, surpresa pelos patrões não terem descido, levou-lhes o café. Palmyre pediu-lhe que deixasse o café ali, pois estavam cansados por não terem dormido bem. Mal a criada saiu e os dois começaram a conversar alegremente. O marido dizia: “Se você soubesse! Oh, se você soubesse!”. Às vezes os dois esposos vão, em noites claras, furtivamente, espiar com empolgação o que se passa na estufa. Desde então, a Sra. Lerebour perdeu o azedume, o marido emagreceu e Celeste teve um aumento em seu salário.
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