Um mundo funcional, ascéptico, consumista, individualista e, por fim, artificial. Este é, basicamente, o panorama de futuro desenhado por Aldous Huxley em seu magistral Admirável
mundo Novo. O afeto é banido das relações e o extremo individualismo resulta, afinal, em uma existência sem sentido, entregue às funções sociais pré-determinadas pelo sistema e ao desfrute de prazeres vazios, desprovidos de sentido simbólico e emocional.
A sociedade de 2500 proposta por Huxley cria seus bebês em grandes centros de gestação, com níveis diferenciados de aprendizado segundo as funções para as quais as crianças são clonadas e programadas. Nos imensos berçários, eles recebem instruções durante o sono de maneira a programar sua mente. Não há pais, mães, avós, maridos, esposas e filhos, a procriação, inclusive, é proibida, pois
Um bebê natural estaria fora dos rígidos padrões de funcionamento da pólis do futuro. Também não há envelhecimento e vivência da morte. Cada pessoa tem a responsabilidade de tomar vitaminas para manter-se jovem e um belo dia se interna em um centro de finalização, tão impessoal quanto o berçario de nascimento e lá se esvai.
No entanto, há um ponto de inflexão na fantástica narrativa. Há um personagem inadaptado, que acaba por descobrir um outro mundo. Paradiando o título, seria o Terrível mundo antigo, onde vivem os selvagens. Nele os corpos se tocam e as mulheres parem seus filhos, os amamentam e embalam. As pessoas envelhecem e morrem aos poucos, deixando aos demais vivenciarem sua decreptude e conseqüentemente aprenderem sobre a própria finitude. Os objetos também são duráveis e há rituais de vários tipos, o que confere o simbolismo necessário para uma existência plena.
O ''terrivel mundo antigo'' é o nosso, que dramaticamente caminha para a imagem de Huxley. Individualismo, exatidão, limpeza e consumo são signos de civilização, enquanto afeto, ternura, tradições ritualisticas, recolhimento ante a dor etc são considerados antigos, fora de moda, ridículos.
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