A capacidade de se auto-ridicularizar é uma das virtudes mais férteis que a
humanidade utiliza para se renovar. Esta característica
não representa, de todo, no contexto das nossas manifestações sociais, uma atitude decadente, pelo contrário, ela produz um efeito analgésico que permite, à medida que os extremos do passado e do futuro se tocam, paradoxais e amargos, erguer mais resistentes no presente as cápsulas de conforto em que tanto gostamos de viver. Rir é o melhor remédio. Contudo, debruçados no esquecimento que esta paródia ambígua também proporciona, a esmagadora maioria dos seres humanos tendem a negligenciar a reflexão individual dos seus actos com prejuízo para o bem estar colectivo. Tendencialmente, perante uma adversidade repentina, inclinamo-nos a criar, imediatamente, razões tão concretas e incontornáveis quanto fatais, para um obscurecimento intelectual que garanta a estabilidade, mas cujos efeitos levam-nos a produzir acções (in)compreensivelmente irreflectidas. Eis finalmente um pequeno livro que se propõe criar espaço para o ressurgimento da letargia como escapatória à reacção subordinada. Provocando-nos uma gargalhada seria sobre a gargalhada original, de repente, se não anula completamente o complexo pelo menos dá-nos um motivo para julgarmos a nossa intimidade, que, afinal, é menos fatal e mais inocente do que pensávamos.
Com intuição divina e muita esgrima, as “leis da
estupidez humana” - plataforma ideológica do autor, são desenvolvidas com recurso aos comportamentos observáveis, primeiro, e no seio deles em seguida, sabendo que o poder para colocar o leitor (e não apenas ele, mas os que o rodeiam também) em ambos os lados da barricada emana dessa frutífera
mélange entre o eu e o outro. Carlo M. Cippola (1933-2000), professor de História da Economia em várias universidades italianas e por último em Berkeley, na Califórnia, começa o seu ensaio por penetrar na luxúria do império Romano e explicar os seus dramas de infertilidade. Com um pensamento raso e acutilante, rapidamente nos oferece a resposta, tão óbvia e transparente - o chumbo e a pimenta; castrador o primeiro e fosforosa a pimenta. Ela pois, digna do delírio e da possessão desenfreada desses imperadores que, sequiosos em demasia, vêem o império desmoronar-se em prol da sua demanda. Chegamos pois aos nossos dias, intrépidos, confusos. Biliões de seres humanos, todos diferentes nos pormenores, iguais na globalidade, senão vejamos: Cippola propõe-nos um exercício: imaginemos os nossos amigos, os nossos conhecidos ou mesmo as figuras públicas do país; observando-os, chegamos às categorias fundamentais das pessoas, classificadas em 4 quadrantes: os Estúpidos, os Crédulos, os Ladrões e os Inteligentes. Esta divisão, mais do que pela intuição resultante do perfume dos topónimos, surge com base nas acções: os primeiros (dignos de reflexão demorada e profundamente caracterizados na obra), na feitura de coisa alguma, não provocam qualquer benefício ou provocam mesmo graves malefícios para si, provocando sempre nefastas consequências para os outros - agravadas pelas circunstâncias imprevisíveis e impensáveis em que os seus actos ocorrem. Nos crédulos, o resultado das suas acções traduz-se sempre numa consequência positiva para os outros, mas em contrapartida, num mal para si mesmos. Por oposição, os Ladrões infligem mal aos outros, tirando daí partido para si e finalmente os Inteligentes, que fazendo bem a eles, fazem igualmente bem aos outros, em qualquer acção que protagonizem. A partir desta quadrilha, Cippola desenvolve considerações sobre o estado actual do mundo. Sou obrigado a concordar com ele, quando reflecte sobre a tendência dos seres Inteligentes e dos Ladrões em não atentarem nos Estúpidos porque os tomam como Crédulos e principalmente pela imprevisibilidade destes, que assim, sem adversários, sem contrariedades e sem decerto eles próprios se aperceberem, alcançam com naturalidade os lugares mais poderosos do mundo, levando-os em seguida à ruína. Apoiado nesta primeira ideia, chegamos às conclusões mais mirabolantes, mas muito óbvias, descritas nas 5 Leis Fundamentais da Estupidez Humana: 1. “É perfeitamente inevitável e sucederá sempre que todos menosprezem o número de indivíduos estúpidos em circulação.” 2. “Há uma enorme probabilidade da pessoa ser estúpida, independentemente de qualquer outra característica sua”.3. É a lei do comportamento atribuído aos Estúpidos. “Os Estúpidos fazem mal a uma ou muitas pessoas, sem que isso se traduza num bem para si, traduzindo-se pelo contrário, muitas vezes, num mal”. 4. “As pessoas estúpidas subestimam sempre as restantes pessoas estúpidas” (o que agrava substancialmente a consequência das acções destrutivas). 5. “A pessoa estúpida é pois a pessoa mais perigosa de todas”. Não há nada a fazer. Todos estes clãs manterão números fixos de elementos, independentemente da natalidade/mortalidade mundial. Resta-nos pois a gargalhada, profunda e intensa, e o agradecimento. Esta lufada de ar fresco reflecte uma realidade que nos oferece aquele deslumbramento palpável que nos mobiliza para o futuro. Só através destas observações melodiosas dos comportamentos humanos, com maior ou menor alcance, pode a face transparente da nossa condição revelar-se finalmente no horizonte.