'O Crime do Padre Amaro', versão de 1880, publicada por Edição 'Livros do Brasil', Lisboa. Esta excelente obra de José Maria
Eça de Queiroz, escritor português que viveu entre 1845 e 1900, é um retrato incisivo e imparcial de uma faceta da vida social portuguesa do século XIX: a vida devota e clerical (aliás a obra tem como subtítulo 'Cenas da Vida Devota'). Não é um
romance centrado numa só personagem, como poderia parecer à primeira vista, mas sim um desfilar de figuras caricaturadas (ou talvez não) de pessoas reais que viviam e pensavam daquela maneira, apenas e só porque era assim que tinham sido educadas e formatadas pela sociedade desde há muitos anos, décadas, mesmo séculos. Como diz Antero de Quental, na inédita carta a Eça de Queiroz que prefacia esta edição, '(...) a indiferença inteligente com q. (sic) V. descreve aquela pobre gente e os seus casos, encantou-me. Com efeito, aquela gente não merece ódio nem desprezo. Aquilo, no fundo, é uma pobre gente, uma boa gente, vítimas da confusão moral no meio de que nasceram, fazendo o mal inocentemente, em parte, porq. (sic) não intendem (sic) mais nem melhor, em parte porq. os arrasta a paixão, o instinto, como pobres seres espontâneos, sem a menor transcendência. Isto é a verdade, em geral, de todos os Homens (...)'. A história desenvolve-se a partir de um homem que, por ser padre, não deixa de ser homem. O
crime que comete não o seria se sendo padre pudesse também ser homem. Mas, mesmo assim, é um crime perdoado com naturalidade, por quem o conhece, tido como inexistente por quem finge que o não vê. 'Uma intriga de clérigos e de beatas tramada e murmurada à sombra de uma velha Sé de província portuguesa', como a caracteriza o próprio autor. Eu não poderia tentar caracterizar melhor! Divertam-se!