Pretende-se, com este texto, traçar uma comparação entre as personagens femininas do livro O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë e dos filmes de mesmo nome, um dirigido por Peter Kosminski (1992) e o outro por William Wyler (1939). A história trata de um homem idoso que encontra um menino abandonado e o leva para casa a fim de adotá-lo. O pequeno é muito bem aceito por sua filha, mas não o é pelo filho que, logo após a morte do velho, transforma o irmão adotivo em criado, submetendo-o a todo tipo de humilhações. Essas três personagens Catarina, Hindley, ambos filhos legítimos do senhor Earnshaw, e Heathcliff, o jovem abandonado, dão início a uma trama em que amor, ódio e vingança dão o tom.
Catarina e Heathcliff apaixonam-se e crescem dando vazão às suas almas livres. Entretanto, Catarina torna-se uma mulher dividida entre sua essência absolutamente selvagem e apaixonada e a ambição de tornar-se uma grande dama. Opta pela segunda e casa-se com Edgar Linton. Heathcliff, ferido em sua inferioridade, desaparece por um tempo para retornar rico e tornar-se o senhor de Ventos Uivantes. A fim de vingar-se e de apoderar-se dos bens de Edgar, Heathcliff casa-se com sua irmã, Isabel, com que tem um filho, Linton. Catarina morre deixando uma filha com o seu nome. Logo após o falecimento da irmã, Hindley também morre, deixando seu filho Hareton nas mãos de Heathcliff, para tornar-se mais uma vítima de sua vingança. Até aqui a narrativa literária e os dois filmes mantêm certa semelhança no que se refere à fábula. O filme de Wyler (1939) chega nesse ponto e termina com a morte de Heathcliff e seu encontro com Catarina no outro mundo. O filme de Kosminski guarda semelhança com livro ao continuar a história dos filhos de Heathcliff, Catarina e Hindley. Acredita-se que esse seja um elemento muito importante, pois conforme será visto mais adiante, a Catarina filha consegue realizar o que a mãe não conseguiu. É conveniente lembrar que no filme de Wyler os filhos sequer existem.
Partindo-se dessa breve retomada da história podemos estabelecer as personagens femininas relevantes para a análise. Obviamente, elas são: as duas Catarinas, a filha e a mãe, e Isabel Linton, que se casa com Heathcliff. A Isabel da narrativa literária, assim como a de Kosminski, podem ser encaradas como o alter ego de Catarina, já que, sendo o seu oposto, caiu em desgraça justamente por ter seguido o caminho que Catarina não ousou seguir. A Isabel de Wyler é um caso aparte, pois, apesar de todos os maus-tratos a que é exposta por Hethcliff, continua amando-o e servindo-o como um cãozinho, não se rebelando em nenhum momento, como ocorre com as outras duas, cujo amor termina em ódio. Isabel, como geralmente forma as mulheres de sua época e de sua cultura, é uma jovem despreparada para a vida, repleta de sonhos românticos acerca do casamento. Por causa desse despreparo e de sua falta de experiência, não é capaz de reconhecer em Heathcliff o predador que este representa. Alma delicada e sonhadora, embora determinada, acredita que poderá realizar seus anseios de um amor verdadeiro com o homem que se tornaria o seu carrasco. A perdição de Isabel foi a de sentir-se profundamente atraída por alguém que não pertencia ao seu universo de mulher civilizada. Heathcliff é uma personagem rude, de alma selvagem, com uma natureza completamente oposta a de isabel. Ao contrário, Catarina, como ela própria sabia, tem a mesma essência de Heathcliff, mas sente-se atraída pelo mundo de Edgar Linton, ao qual Isabel pertence. Catarina demonstra a percepção que tem da situação em conversa com Nelly.
Também em oposição a Isabel, que não tinha consciência de não pertencer ao mesmo universo do homem a quem amava, Catarina sabia que o mundo de Edgar Linton não era o seu. Tinha plena convicção de que o “céu” a que tanto almejava não lhe pertencia. Não é mulher de delicadezas celestes, é tão terrestre quanto Heathcliff e sabe disso. O que não acontece com Isabel, que não percebe o abismo que a separa de seu futuro marido. Isabel, nesse sentido, está mais de acordo com a sociedade em que vivem do que Catarina que não é, absolutamente, uma mulher ingênua, incapaz de perceber o que se passa. Catarina cometeu o erro de casar-se com Edgar sabendo o que isso significava.
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