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Shvoong Home>Livros>Poesia>A tensão do tempo presente em "A Rosa do Povo"

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A tensão do tempo presente em "A Rosa do Povo"

por : BeteFekete    

Autor : Carlos Drummond de Andrade
Obra de engajamento e participação social, “A Rosa do Povo” é o maior acontecimento poético de 1945, por revelar em Drummond,
um revolucionário que identificava-se com os problemas populares, sem abandono de sua personalidade artística que se conjugava com os processos de criação do Modernismo. Foi publicada numa época marcada por crises, como a Segunda Guerra Mundial e a Ditadura Vargas. O poeta mostra-se um observador poderoso que capta o sentimento, as dores e a agonia de seu tempo, o qual se expressa através de seu sujeito-lírico, cuja preocupação perpassa seus versos, resultando numa poética de alto teor de expressividade. Conforme Antônio Candido, “a importância da matéria histórica na constituição da obra, compreende que a tematização dos conflitos sociais e políticos advém de um processo nada inédito na poesia drummondiana, mas que já se iniciara em meados dos anos 30. A temática como o autoritarismo, tende a ser interpretada por meio de rótulos como poesia social, política e engajada”. Há uma suspensão da ironia, presente nos em seus primeiros livros, a favor de um esforço que coloca uma voz em prol de um tempo marcado por acontecimentos de grande impacto na vida brasileira como a ditadura de 1937-1945, a qual se caracterizou por um Estado autoritário, de forte intervenção estatal. A temática autoritária é discutida quando materializada em uma instituição ou pessoa, por exemplo, a família ou a figura do pai. Se esta instituição aparece em sua na poesia perpassada pelo autoritarismo é porque este não é um fenômeno restrito à família, mas também à história do país, afinal aquela não existe dissociada desta. Assim, essa problemática, guarda íntima conexão com problemas de formação do país. Outra temática, como a guerra e o nazismo, significa uma intensa preocupação do escritor para fatos prementes e uma estratégia de resistência diante de uma situação política e social, em que a formação autoritária e violenta da sociedade brasileira encontra respaldo no pensamento oficial. Dentro de um ambiente oficialmente autoritário, constrói sua crítica por meio de uma linguagem cifrada, fragmentária, muitas vezes estranha à lógica sintática e à semântica do Português. Prova disso são os vários poemas elaborados com uma linguagem alegórica, cujas imagens, em um primeiro momento, não permitem um reconhecimento direto dos assuntos, ou seja, os poemas são construídos por uma trama tensa entre texto e contexto, a qual escapa à visão de obra como representação de demandas históricas de alto impacto traumático. Os poemas mostram drummond a construir um caminho pautado por diversas estratégias discursivas inconstantes e híbridas, as quais, no plano do conteúdo, apresentam uma gama de ações e estados de espírito que se inscrevem também na modernidade: resistência, estagnação, melancolia, desejo de morte, solidariedade, esperança, angústia, utopia. Estes estão imbricados e mostram também um processo crítico e reflexivo. A alegoria, também,sem ligação direta com os fatos históricos mais imediatos, se caracteriza por um sentido diferenciado da estratégia anterior, pois não lida com temáticas públicas permitidas pela censura. Sua estratégia de burla ao pensamento conservador é se voltar para questões escondidas dos discursos oficiais como o autoritarismo nas relações familiares, a fim de divergir dos discursos oficiais sem criticá-los diretamente. O sujeito-lírico situa-se em um permanente risco de ser censurado, uma vez que seus poemas, por meio de um jogo intrincado de elaborações, não compactuavam com as idéias oficiais de uma nação homogênea e branca apregoada pelo governo brasileiro. Nesse âmbito, as variadas experimentações de seus poemas constituem-se em estratégias de reação e resistência que abrem várias outras “trincheiras” discursivas, estranhas às expectativas do leitor bem como à produção poética da época, além de evitar choques frontais com a direita autoritária. Com tal escolha, Drummond procura escapar através de sua “alienação”, que se fecha em sua dor e, de outro o poeta revolucionário, que luta contra a opressão, consciente de seu compromisso com o povo. O gauchismo, presente em toda sua antologia, mas que, igualmente ao conceito ‘história’, serve como um trunfo, uma estratégia estilística. Isto ocorre porque a análise realiza-se no interior do texto para só após serem detalhadas as coisas ir-se para a interpretação global. Trata-se de dois movimentos em suas reflexões: o primeiro, específico, pois só afirma o que realmente encontra nos textos do autor; e, o segundo, geral, uma vez que, a partir dos elementos configuradores do poema, percebe que estes guardam profunda relação com problemas sociais. Quando utiliza a palavra “mundo”, esta desempenha uma função semelhante ao “gauche”, cujas esferas são delimitadas: o “(não) lugar do indivíduo” no universo capitalista e ao contexto histórico, no qual o sujeito sem lugar tem sua situação de cisão aumentada devido ao conflito bárbaro comandado pela técnica, ao mesmo tempo em que se vê em um regime fascista. Como conseqüência, além da negatividade do sujeito-lírico, surge a melancolia, advinda do impasse entre ver e mover o mundo, e a fragmentação por não encontrar nem no espírito nem na matéria histórica totalidade capaz de torná-lo pleno de sua existência. Por fim, a tensão presente em “A rosa do povo” é uma expressão para problemas de seu tempo, que segundo Arrigucci (2002), “o conteúdo de verdade da poesia de Drummond, (...) é histórico até o mais fundo (...). E não é histórico porque reproduza fatos históricos, (...) mas, porque revela uma consciência verídica da experiência histórica entranhada profundamente na subjetividade e na própria forma poética que lhe deu expressão”.
Publicado em: novembro 03, 2007
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