TRADUÇÕES DE WERNECK
Dando seqüência às traduções livres, mais um Verlaine:
Mon rêve familier
Paul Verlaine- Poèmes saturniens
Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant
D''une femme inconnue, et que j''aime et qui m''aime,
Et qui n''est chaque fois, ni tout à fait la même
Ni tout à fait une autre, et m''aime et me comprend.
Car elle me comprend, et mon coeur, transparent
Pour elle seule, hélas, cesse d''être un problème
Pour elle seule, et les moiteurs de mon front blême,
Elle seule sait les rafraîchir, en pleurant.
Est-elle brune, blonde, rousse ? Je l''ignore.
Son nom? Je me souviens qu''il est doux et sonore
comme ceux des aimés que la Vie exila.
Son regard est pareil au regard des statues,
Et pour sa voix, lointaine, et calme, et grave, elle a
L''inflexion des voix chères qui se sont tues.
Meu sonho particular
Tenho sempre este sonho estranho e penetrante
De uma mulher incomum, que eu amo e que me ama,
E que em cada vez, nem tudo a faz a mesma
Nem tudo a faz uma outra, e me ama e me compreende.
Mais ela me compreende, e meu coração, transparente
por ela só, viva!, cessa de ser um problema
Por ela só, e o suor de minha fronte pálida,
ela sozinha sabe como refrescar, com lágrimas.
Ela é morena, loira, ruiva? Eu ignoro.
Seu nome? Sei que são dois e que são sonoros
como aqueles dos amantes que a Vida exila.
Seu semblante é semelhante ao semblante das estátuas,
E na sua voz, longínqua, e calma, e grave, ela tem
a inflexão das vozes que a ela são caras.
A seguir, Baudelaire:
La vie antérieure
J''ai longtemps habité sous de vastes portiques
Que les soleils marins teignaient de mille feux
Et que leurs grands pilliers, droits et majesteux,
Rendaient pareils, le soir, aux grottes basaltiques.
Les houles, en roulant les images des cieux,
Mêlaient d''une façon solennelle et mystique
Les touts-puissants accords de leur riche musique
Aux couleurs du couchant reflété par mes yeux.
C''est là que j''ai vécu dans les voluptés calmes,
Au milieu de l''azur, des vagues, des splendeurs
Et des esclaves nus, tout imprégnés d''odeurs,
Qui me rafraîchissaient le front avec des palmes,
Et dont l''unique soin était d''approfondir
Le secret douloureux qui me faisait languir.
Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal
A vida anterior Há longo tempo moro sob os imensos pórticos,
Que sóis marinhos colorem de mil fogos
E que seus altos pilares, retos e majestosos,
Arremetem parelhos, à tardinha, às grutas basálticas.
As ondas, refletindo as imagens dos céus,
Misturam com uma atitude solene e mística
Os todo-poderosos acordes de sua rica música
Com brilhos do pôr-do-sol refletidos por meus olhos.
É lá que eu sou observador das volúpias calmas,
No meio do azul, das vagas, dos esplendores
E da vegetação nua, toda impregnada de odores,
Que me refrescava a fronte com as palmas,
E cuja única missão seria aprofundar
A secreta aflição que me causaria tédio.
Outro Baudelaire clássico:
Les hiboux Sous les ifs noirs que les abritent,
Les hiboux se tiennent ragés,
Ainsi que des dieux étrangers,
Dardant leurs oeil rouge. Ils méditent.
Sans remuer ils se tiendront
Jusqu’à l’heure mélancolique
Où, poussant le soleil oblique,
Les ténèbres s’établiront.
Leur attitude au sage enseigne
Qu’il faut en ce monde qu’il craigne
Le tumulte et le mouvement ;
L’homme ivre d’une ombre que passe
Porte toujours le châtiment
D’avoir voulu changer de place.
Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal.
As corujas Nas árvores escuras que as abrigam,
As corujas se põem coléricas
Como esses deuses exóticos,
Dardejando olhares rubros. Meditam.
Sem se agitarmelancólica
Enquanto, despachando o sol oblíquo,
As trevas se estabelecem.
Sua atitude tão sábia ensina
Que elas se abstêm do mundo que ansia
Pelo tumulto e o movimento;
O homem cheio de inquietação que passa
Carrega sempre o castigo
De desejar mudança de lugar.
Obrigado pela atenção, volte sempre. Prometo novidades. Abraços, Werneck
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