Gil Vicente era humanista e criticava a decomposição dos antigos valores. Sua obra apresentou o indivíduo em sociedade, criticando-lhe os costumes e tendo em vista reformá-los. Suas peças apresentavam fins moralizantes. Acreditava que através do lúdico, corrigia. Não visava atingir instituições, mas os homens inescrupulosos que as compunham. Por esse motivo, criou personagens que representavam tipos sociais. Daí, a maioria deles serem caracterizados pela posição ocupada socialmente. Nenhuma classe escapou à sua sátira. Do ponto de vista técnico, seu
teatro era rústico e primitivo. Desconhecia o teatro greco-latino e a tradicional lei das três unidades (único lugar, tempo delimitado e apresentar o mesmo tipo de ação). Sua formação teatral reside nas poucas manifestações teatrais existentes na Idade Média, relacionadas com datas religiosas. Apesar dessas origens, os “autos” almejam demonstrar como o ser humano é egoísta, falso, mentiroso, orgulhoso e frágil perante os apelos carnais e do dinheiro. Seu teatro, também, era alegórico, no qual mostrava situações que passavam mensagens através de personagens do imaginário coletivo.
“O Auto da
Barca do Inferno” foi escrita em redondilhas maiores, em tom coloquial e com intenção doutrinária, fundindo em algumas passagens o português, o latim e o espanhol. Cada personagem apresenta, através da fala, traços que denunciam sua condição social. Possui um único ato, subdividido em cenas marcadas pelos diálogos que o Anjo ou o Diabo travam com os mortos, num ancoradouro, no qual estão atracadas duas barcas. Todos devem passar por esta paragem, sendo julgados, condenados ou salvos. O Diabo, personagem alegórica, é o condutor das almas ao Inferno. Conhece muito bem cada um dos personagens, sendo zombeteiro, irônico e bom argumentador. O autor não o responsabiliza pelos fracassos e males humanos. Ele é um juiz, que exibe o lado recôndito dos personagens, penetrando nas suas mentes e revelando o que cada um deles procura esconder. Destaque deve ser feito a essa figura que conhece a arte de persuadir. Ágil no ataque, retruca, argumenta. A ele cabe denunciar os vícios e as fraquezas, sendo o personagem mais importante na crítica vicentina. Já, o Anjo, outra alegoria, é o barqueiro que conduz as almas ao Paraíso. Conhece as fraquezas das almas, permitindo ou não a sua entrada.
Podemos classificar as personagens-tipo em duas categorias: aquelas que são condenadas à Barca do Inferno e as que são conduzidas à Barca da Glória. Analisaremos por ordem de entrada na peça. Primeiramente, o Fidalgo, que teve uma vida de luxúria e de pecados. Nada lhe valem as “compras” de indulgências ou orações encomendadas. A crítica à nobreza é centrada nos dois principais defeitos humanos: o orgulho e a tirania. Traz consigo um pajem, uma roupagem exagerada e uma cadeira de espaldar, elementos de seu status social. Por ser de classe elevada, achou que deveria ser enviado ao Paraíso. Porém, teve como destino final o Inferno. O segundo julgado foi o Onzeneiro, personagem que representa a cobiça, cujo bolsão estava vazio, o qual tenta retornar a terra para buscar o seu dinheiro. Teve o mesmo destino do anterior. O terceiro, chega desprovido de tudo. Joane, o parvo, é simples, sem malícia e consegue driblar o Diabo e até injuriá-lo. Ao dizer não ser ninguém para o Anjo, adentra a Barca da Glória por sua inocência, humildade e simplicidade. Em seguida, surge o Sapateiro com seu avental carregado de formas, símbolo de sua profissão, representando os mestres de ofício. Engana na vida e procura enganar o Diabo, argumentando que morreu se confessando, ouviu missas, rezava pelos mortos e doava dinheiro à Igreja. Por ter roubado seus clientes é condenado ao Inferno. Logo após, entra , muito alegremente, o Frade, que carrega consigo os apetrechos para esgrima, o capelo e sua amante. Acredita que por rezar e estar a serviço da fé, deveria ser perdoado de seus pecados mundanos. Gil Vicente desfecha ardorosa crítica ao clero, acreditando-o incapaz de pregar as três coisas mais simples: a paz, a verdade e a fé. Para compor a nau infernal, surge Brízida Vaz, um misto de alcoviteira e feiticeira. Tem uma vida devassa e sem escrúpulos. Traz seus objetos de feitiçaria, de furtos alheios e de cirurgia genital. Personagem que faz o público conhecer a moral dos outros personagens que com ela se relacionaram. Alega ser caridosa, mártir da Igreja, por oferecer moças aos bispos e salvá-las de uma gravidez indesejada. Todavia, é condenada pela prática da prostituição, do aborto e exploração de famílias. O sétimo personagem é o Judeu e seu bode, que é deplorado por todos, pois não seguir os preceitos da fé judaica. È igualmente condenado ao Inferno, mas vai de reboque. Imediatamente, surgem as figuras representantes do Judiciário, o Corregedor (juiz) e Procurador (advogado) carregados de processos. Foram imorais e manipularam a justiça de acordo com as propinas recebidas. Devido a isso, se juntam aos demais na Barca do Inferno. Esta recebe um último tripulante, o Enforcado, escrivão conhecido na corte. Acredita ter o perdão garantido, pois seu julgamento terreno por crimes cometidos à Coroa e posterior condenação à morte o teriam redimido de seus pecados. E, enfim, se encerra a peça com os Quatro cavaleiros, homens portando a Cruz de Cristo, espadas e escudos, os quais lutaram pelo triunfo da fé cristã e morreram em poder dos mouros. O Diabo os convida para embarcar, mas com uma vida impecável são inconscientes de seus pecados e se direcionam à Barca da Glória.
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