Júlio Verne é
um escritor fantástico. A todos os títulos.
Primeiro porque escreveu sobre sítios em que nunca pôs os pés, a cidade de Istambul é apenas um exemplo. Mais ainda, escreveu sobre sítios onde, até então, nunca ser humano algum tinha estado: a Lua. O que é ainda mais extraordinário, é que Júlio Verne conseguiu escrever sobre realidades que, até esse momento, ainda nem sequer ainda o eram. O Nautilus, o formidável submergível das 20.000 Léguas Submarinas, é apenas e só
uma pequena amostra do génio criativo e da prodigiosa capacidade imaginativa deste autor francês.
Claro que, quem assim escreve, nas franjas da realidade, na margem do possível, arrisca-se a falhar alguns prognósticos. Constata-se, na actualidade, que não é possível viajar até ao centro da Terra. Mas para quem escrevia no século XIX é, simplesmente, admirável, efectuar um balanço entre a quantidade de factos que Verne conseguiu acertar e que, hoje em dia, consideramos banais.
A
Ilha Misteriosa é, em minha opinião, um dos melhores livros que Júlio Verne escreveu.
A acção inicia-se durante a Guerra da Secessão dos Estados Sulistas da União. Um punhado de bravos e intrépidos prisioneiros ianques (à maneira de Verne não falta um jovem e um cão) consegue escapar de uma cidade sitiada, num balão e acaba, depois de uma intempérie fenomenal, por ir dar a uma praia (um dos capítulos iniciais intitula-se "Continente ou ilha?", a resposta é ilha...).
O delicioso no livro (repartido por três volumes) é ver como estes aventureiros (a quem não faltará depois um "Sexta-feira" e um náufrago abandonado numa ilha próxima), conseguem organizar-se e erigir, virtualmente do nada, uma verdadeira "mini-cidade".
Existe uma "presença" misteriosa, mas "benfazeja" na ilha.
Por isso é que a ilha é "misteriosa". E por isso mesmo é que, a revelação da identidade dessa presença seria uma traição, inaceitável, a Júlio Verne e a quantos adoram a sua obra.
A primeira vez que li o livro tinha 12 anos. Desde então leio-o a cada 2 ou 3 anos. Para manter a juventude da alma e relembrar o gosto da descoberta que então senti, maravilhando-me com o quão fantástica é a capacidade de alguns escritores de imaginar acontecimentos, antes de estes virem a ocorrer.
Misteriosa capacidade...
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