Inspirado no romance “A Casa das Belas Adormecidas” de Yasunari Kawataba, em que existe
uma “relação” entre pessoas com idades bem distintas, “Memória das minhas putas tristes" relata-nos a vida de
um jornalista, já nos seus noventa anos, que decidi recompensar toda a sua jornada dedicada às prostitutas, às letras e escritas e ao ensino com “uma noite de
amor louco com uma adolescente virgem”.
E é assim, com o desejo de desflorar uma bela menina que inicia essa nova etapa da vida que é a chegada aos noventa anos. Para isso, pede a Rosa Cabarcas, dona de um prestigiado e antigo bordel, que lhe arranje a jovem.
O solitário e sonhador homem, que nunca se deitou com mulheres que não aceitassem o seu dinheiro como forma de pagar pelo serviço, encontra um amor que nunca pensou encontrar e com o qual tem dificuldades em lidar.
O velho, com um nome desconhecido em todo o conto, transporta para as crónicas dominicais, que escrevia para “El Diario de la Paz”, o amor que sentia por Delgadina (como ele imaginava que ela se chamava) e aprende que, no amor, o tempo e a idade são irrelevantes, pois um velho também pode morrer de amor.
O acto sexual em si nunca chega a acontecer, mas os momentos que passam juntos, embora com Delgadina “adormecida”, são dotados de imensa intensidade, amor e sentimento...
Após erros cobertos de atitudes infantis e apaixonadas, ele vê o seu amor partir. Contudo, mais tarde, volta a encontrá-la, mas pensa que ela está diferente, que está tal e qual como as outras que lá andam pelos bordéis.
Como seria de esperar, arrepende-se e volta a pedir, não pela 2ª nem 3ª vez, que Rosa Cabarcas o ajude e que chame a menina para mais uma noite, no “seu” quarto, decorado a preceito.
Um ano mais tarde, quando se prepara para completar noventa e um anos e pensa que a sua hora não tarda em chegar, tudo acaba como havia começado 12 meses antes, vendo pela janela que “o sol estoirou entre as amendoeiras do parque e o navio fluvial do correio, atrasado uma semana pela seca, entrou bramindo no canal do porto”, mas desta vez ele estava diferente, vivia uma realidade, onde estava condenado a morrer de amor e na angústia feliz, um dia qualquer, depois dos cem!
E eu, somente aí, percebi que quando ele disse que “é impossível não acabar sendo como os outros julgam que somos” fazia todo o sentido... por muito imprevisível que uma pessoa possa ser, acaba por se fundir com o que achamos que ela é, ou seja, uma pessoa tenta agradar uma outra e, sem saber, cinge-se às nossas opiniões e catalogações, que a levam a ser como nós achamos que deve ser...
Como qualquer outro livro, Memória das minhas putas tristes transborda críticas à sociedade contemporânea...
Após árduos esforços de dissipar o confuso nevoeiro onde está expressa a crítica social, noto que Gabriel García Márquez apenas quer reforçar que os conceitos como amor, amizade, mulheres e sexo são coisas distintas, mas que podem vir conjugadas.
Percebemos, também, que nem sempre podemos associar a mais velha profissão do mundo com mulheres dotadas de mentalidades sujas e impuras, porque não é somente essa a realidade. Muitas delas cingem-se à tal situação por necessidade ou para agradar humanos como nós!
Perdidos num século XX, onde as modernices tentam sobrepor-se ao básico, a história é repleta de sentimentos e sensações ainda hoje vividas!
O amor e a amizade são valores que devemos resguardar e cuidar, pois são esses que ficarão connosco para toda a eternidade. Não é o dinheiro que se tem que manter, esse há que se gastar; não são os bens materiais, esses há que se usar, e nem são as roupas ou os sapatos, esses há que se renovar... Mas sim o amor, um sentimento de entrega e de poder amar o outro, terá que se manter intacto e igual desde o primeiro instante!
Se assim não for, o que será de nós, sozinhos e abandonados, ao sabor da maré, remando contra o tempo, sem marujos que nos apoiem!?
Não esqueçamos, ainda, que Gabriel G. M. se questiona até que ponto estica a moral e a pureza dos nossos sentimentos... Será que nenhum de nós consegue viver toda uma vida sem sucumbir a um pecado ou a uma tentação obscena?
Aprendi, também, que nunca se é velho demais para se aprender a amar, porque afinal a velhice é apenas um estado comprovativo de que já vivemos mais do que outros e que ainda outro tempo mais temos por viver... Também a idade é insignificante neste sentimento que é o amor porque, na realidade, o mais importante revê-se nos detalhes e na dedicação, no esforço por agradar e por saber conseguir o que queremos sem pedi-lo.
Amar é querer viver mais, para nunca largar algo com que não podemos viver sem!
Então, com uma leitura fácil e com poucas páginas, coberto de romance e sentimentos humanos, percebi que temos que dar mais valor ao que sentimos, ao que queremos e ao que realmente precisamos. Também, precisamos de viver a vida sem preconceitos e sorridentes, pois nunca saberemos quando ela acaba e, por isso, é necessário sair dos limites e ter as nossas aventuras!
“Memória das minhas putas tristes” sacode e acorda todos nós para uma realidade dos sentidos que, talvez por não sabermos bem lidar com ela, muitos tentam abstrair-se e viver como se nada fosse!
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