A RAÍNHA ISABEL CANTAVA RANCHERAS.Houve alguém que recomendou, nunca escrevas sobre aquilo que conheças. Este conselho não
foi levado a sério por Letelier,este contador de histórias chileno. Viveu para contá-las. Foi o mineiro que achou o filão da literatura ? Ou o
escritor que achou a mina das pampas, o salitre das verdades sórdidas que nos tornam a nós leitores, testemunhas ?
Hernán Letelier é um dos seres mais religiosos que pude
conhecer, não podendo conhecer a a santidade que nunca teve, prodígio de unir o pecado à humanidade através da melhor procissão de prostitutas e clientes,reformados e vagabundos que a Nossa Senhora da Piedade já teve ou terá. Dito isto, importa referir que a narrativa carece de enredo, não tendo o foco de que falava Leão Tolstoi. Salva-se a construção de personagens inolvidáveis da Exploração, como a Ambulância,"gorda,soberba,monumental, aquilo a que se chama uma senhora puta",como o Poeta Mezena ou a própria Rainha Isabel.
Um escritor que se esqueceu de procurar a grandeza da violencia,o rigor do enlace, o arco de oito voltas, preferindo ser descrito pelo próprio contexto e pela época como o mineiro que escreveu poesia por linhas tortas. Parabéns pela capa da edição portuguesa da Quetzal Editores em 1998, quatro anos depois da edição original.