Eu queria dar minha opinião sobre os livros do Conrad, mas
abro mão dela pra chamar ao palco outro grande das letras mundiais: H. L. Mencken.
Estou lendo Lorde Jim, li antes Juventude, O Coração das
Trevas e O espelho do mar e Registro pessoal (que é não é ficção).
Conrad é caudaloso como o mar. E suas obras são saborosos frutos do mar pescados por quem foi até comandante de navio. A prosa de Conrad não é direta, reta, limpa. É cheia de meandros, contradições, vírgulas, descrições, subentendimentos, subterfúgios, paradas bruscas, solavancos. A história vai se formando aos poucos, como um quebra-cabeça.
Mencken adorava Conrad. No Livro dos Insultos, ele fala sobre Edgar Allan Poe, Mark Twain, Ambrose Bierce e Joseph Conrad. Só. Veja o que diz: “Tome O Coração das Trevas como o arquétipo de toda sua obra e a pedra fundamental de seu sistema metafísico. Aqui temos todas as aspirações e esperanças humanas imagináveis, reduzidas a um denominador comum de loucura e fracasso, e temos uma peça de humor infinitamente perspicaz e mordaz.” (...) The end of the tether, traduzido no Brasil como O fim das forças, “é uma das maiores narrativas, longas ou curtas, em língua inglesa, e com Juventude e O Coração das Trevas compõe a maior obra de escrita imaginativa do Século XX já pôde mostrar.”
Continua Mencken: “Mas nenhum outro de seus livros me parece conservar de modo tão firme o alto nível – nenhum outro, como um todo, tão satisfatório e maravilhoso como O Coração das Trevas. Há neste uma perfeição de projeto que só se encontra rara e miraculosamente na prosa de ficção: pertence mais à música. Não consigo me
imaginar tirando uma única frase da história sem deixar uma falha visível; é tão durch componiert, do começo ao fim, quanto uma fuga. E nem posso me imaginar acrescentando-lhe uma única frase sem causar dano. É austeramente perfeito, como o lento andamento da Sinfonia Inacabada.”
“E nem Lorde Jim é uma obra-prima por acaso, um pico isolado. Ao contrário, é uma unidade numa longa série de obras extraordinárias e quase incomparáveis – uma série que brotou, de repente, com arrebato, do Almayer’s Folly (Loucuras de Almayer). Desafio a nobreza e a classe educada da cristandade apontar outra Opus 1 tão magnificamente planejada e construída como Almayer’s Folly. A cada leitura, parece mais miraculosa. Se não é uma obra de gênio, então não existe nenhuma obra de gênio na Terra.”
Obrigado, Mencken!
Se apenas isso não deixar você com vontade de mergulhar no mar das palavras de Conrad, pode, pelo menos assistir Apocalipse Now, que foi inspirado em O Coração das Trevas. Marlon Brando faz o papel de Kurtz, o grande personagem que vivia lá no coração da floresta – das trevas, se preferir.
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Abraços, Rui Werneck. Tem Lorde Jim em qualquer sebo por cinco reais!