A obra, “Outra Volta do
Parafuso”, de Henry James, foi publicada numa revista entre janeiro e abril de 1898. Ele a escreveu num período no qual a convicção em
fantasmas e espiritualidade prevalecia na Inglaterra e América, onde havia uma certa desilusão difundida contra a religião tradicional. De acordo com alguns críticos, o autor recebera uma visita do Arcebispo de Canterbury, Edward White Benson, que lhe contou um relato de duas crianças corrompidas por fantasmas de criados depravados e, um outro amigo, Edward Gurney, publicou um conto de uma mulher e uma criança que moravam em uma casa assombrada por um criado masculino malvado e um fantasma vestido de preto. Outras influências incluem textos médicos a respeito de governantas e um livro sobre epilepsia de lóbulo temporal, sugerido por Oscar Cargill. Essa novela seria simplesmente uma história de fantasmas, ou de uma mulher histérica, ou de um narrador incerto? Lendo-a, sob o ponto de vista da
narradora, o leitor tem um conhecimento limitado e percepção parcial dos eventos que acontecem, confiando no julgamento que ela faz. Outro aspecto significante é o uso do caráter do confidente que nos dá uma chance extra para personagem principal está pensando. Quando a
governanta conversa com a Senhora Grose, não temos certeza de que ela conta a verdade, por sua vez, essa não nos esclarece se está acreditando ou não. Além disso, segundo a
teoria freudiana, a repressão sexual da governanta a conduz a uma imaginação neurótica na qual ela vê fantasmas. O romance pretende ser o relato redigido pela governanta, sendo escrito em primeira pessoa sob a sua perspectiva. Entretanto, no “prólogo”, o narrador não mencionado fala sob sua própria perspectiva desse manuscrito em sua posse, provendo o leitor com informação de fundo confiável. Aqui, também, é revelado a origem do título do livro: ao contar uma história de fantasmas, na qual a criança é visitada por espectros, dá a narrativa “uma volta do parafuso” e, ao falar para duas crianças, dá ao parafuso “duas voltas”. Iniciando a narrativa, primeiramente, há uma troca da classe social da narradora, de baixa para a de governanta, que poderá até assumir o papel de mãe de Flora e Miles. Estes são descritos por ela como figuras angelicais e notáveis, levando-a a ter uma percepção positiva das crianças. Ao finalizar o primeiro capítulo, a jovem conclui anunciando “um navio que eu estivesse, estranhamente, manejando o leme”, fazendo uma metáfora ao leitor que este está vendo somente sua interpretação dos eventos futuros. A moça era filha de um clérico rural que vivia uma vida limitada, sem poder expressar seus sentimentos para algum homem que a atraísse. Ao receber a carta de expulsão de Miles, ela o toma por “ruim” e tem medo que o menino a “corrompa”. Incapaz de expressar suas emoções ao patrão, transfere sua ansiedade nos jovens, principalmente ao menino. A primeira aparição do
Fantasma no alto da torre, marca um momento decisivo na história, introduzindo um elemento desconhecido e ameaçador, que traz a maldade, iniciando a luta entre o bem e o mal. Ao descrevê-lo para a Senhora Groise, só menciona poucos detalhes físicos. Depois ela o faz minuciosamente, levando o leitor a duvidar da existência dele. A segunda visão é tão problemática quanto a primeira. A governanta age de maneira semelhante, perdendo a noção de objetividade. No capítulo IV, a narradora alude a um romance famoso de “Udolpho”, mostrando o desejo que ela tem de se ver como salvadora, escrevendo, assim, sua própria realidade como protetora e defensora das crianças. Se os fantasmas não são reais, o desejo de ver-se como heroina a conduz a ver os espíritos como reais e ameaçadores. Neste ponto há uma explicação freudiana: os particulares do aparecimento do fantasma de Peter Quint, como sendo o estereótipo de macho sexualmente predatório. O aparecimento da Senhorita Jessel no lago representa um fator crucial na percepção da governanta. Até esse momento, as crianças eram tidas como “anjos”, mas a partir de então, tornam-se malditas, pois elas comunicam-se com os fantasmas, mas os negariam se lhes fosse questionado. O encontro da narradora com os dois espíritos nos degraus faz o leitor duvidar se ela está louca ou se eles são mesmo reais. O romance que ela estaria lendo poderia estar pregando-lhe peças em sua mente, podendo estar até sonhando. Quando confrontou com Quint, a governanta, sentindo-se ameaçada pelo seu poder, ele virou e partiu. Porém, com a Senhorita Jessel, isso não acontece, ele a encara. Esta cena é uma reversão da cena do lago durante a qual ela tem medo de fixar os olhos no fantasma feminino. Nota-se, contudo, que a fantasma não a assusta e nem a intimida. Os fantasmas, então, representariam os medos e a ruína moral da governanta. Logo, nota-se, ao longo da novela, que a narradora usou de uma linguagem perceptiva para relatar os acontecimentos, tornando o romance altamente subjetivo. Os fatos concretos acontecem raramente, todos envolvendo o garoto Miles. Isso, nos sugere que ela era obsecada por ele. Sua decisão em tratá-lo igualmente, no final da narrativa, é o resultado de um efeito neurótico-sexual e portanto, a morte do menino representaria uma vitória, pois não o dividiria com mais ninguém.
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