Em
um tempo longínquo existiu uma
menina muito bonita que foi apelidada de Chapeuzinho
Vermelho devido a um ornamento recebido de sua
mãe e
avó. Certo dia, a mãe a enviou à casa da avó levando um bolo e um pote de manteiga. Ao passar pelo bosque, deparou-se com um Lobo, o qual ficou com vontade de devorá-la, porém se conteve, pois lenhadores espalhavam-se pela mata. O animal perguntou-lhe aonde ela ia e a menina, ingênua, respondeu-lhe. Condoído com a situação da velha senhora disse à garota que também queria visitá-la. Assim, propôs-lhe que ele fosse por um caminho, mais curto, e ela por outro, mais longo, chegando rapidamente a seu destino. Bateu na porta da casa da boa idosa e disfarçando sua voz na da jovem conseguiu entrar na casa, atirando-se na mulher e devorando-a. Logo em seguida, foi deitar-se na cama da avó, esperando a garota, que depois de alguns minutos bateu à porta, identificando-se. Afinando a voz, pediu que entrasse e sentasse a seu lado. A menina, vendo a avó de camisola, ficou espantada com a figura esquisita e iniciou uma série de perguntas sobre sua estrutura física. Dissimulado, o enorme animal respondeu-lhe carinhosamente. No entanto, quando a garota perguntou-lhe sobre seus dentes, ele disse que eram para comê-la e devorou-a sem piedade. O conto inicia descrevendo o por quê a menina ganhou tal acessório, o "Chapeuzinho Vermelho". De acordo com a psicanálise, demonstra que ela mereceu tal talismã, pois possuía a qualidade da beleza e da bondade. A cor chama-nos a atenção, “Vermelho”, um dos símbolos mais usados em nossa cultura para referir-se ao sexo e uma das metáforas da transformação. Logo em seguida temos a mãe, aquela que alimenta, acolhe e dá carinho. Depois, como se faz necessário ao desenvolvimento infantil, deixa sua filha sair para atravessar a floresta sozinha. A garota leva consigo manteiga e bolo. Este é o símbolo do órgão viril ou pênis. A mãe e a avó representam a mesma pessoa – ambigüidade da figura materna – do mesmo modo que as duas casas representam o mesmo lugar. O que muda é a maneira como a menina os percebe. A mãe está disposta a quebrar o vinculo com a criança, pedindo à ela que se dirija a casa da avó. Entretanto, no papel de Ego (principio da realidade) da garota, o qual ainda não está instalado, não se esquece de recomendar o devido cuidado com a floresta – o inconsciente – e com o principio do prazer, representado pelo ID, na figura do Lobo malvado. Este mostra a menina que sair do caminho pode colocar sua vida em perigo, remetendo à questão edípica, na qual surge o desejo da filha de ser seduzida pelo pai. Por isso, é necessário a eliminação da mãe-avó, a fim de deixar o caminho livre para que seus desejos inconscientes tornem-se concretos, redimindo-se da culpa, sendo também castigada e comida pela fera. Quando a criança resolve seguir o caminho indicado pelo animal vai brincando e colhendo flores e frutas. A colheita significa o desejo e o medo inconsciente das meninas de serem raptadas ou violentadas. Finalmente, o número de personagens presentes no conto – mãe-avó, menina e Lobo, no total de três, forma uma triangulação. Em algumas tradições é considerado o número perfeito ou da harmonia e síntese dos contrários. Assim, durante sua leitura, deparamos com uma série de símbolos os quais designa esse conto de fada com um conto de retorno, visto que a sexualidade infantil aparece disfarçada na forma indireta da genitalidade, apresentando-se ameaçadora, pois a garota não estaria preparada para ela. Há um desdobramento dos integrantes femininos da família da protagonista, permitindo o leitor realizar na fantasia a elaboração de uma experiência cotidiana real, porque simbolizam os sentimentos de amor e preocupação. A sexualidade do Lobo aparece tanto animalesca e destrutiva como infantilizada ou na fase oral, pois devorou menina, transformando-se em objeto parcial persecutório perfeito. Esta narrativa é produto de motivos inconscientes do homem – atemporais e universais – ePerrault fundamenta seus argumentos em símbolos, os quais não existiam em versões mais antigas da história. O chapéu vermelho e a garrafa que a menina levava para a avó, por exemplo, respectivamente símbolos da menstruação e da virgindade, apareceram apenas em versões mais tardias. Na especificidade do olhar historiográfico, a forma e o conteúdo dos
contos de fadas devem ser apreendidos à luz do universo social em que se reproduzem. Nessa versão analisada, Chapeuzinho Vermelho foi morta pelo Lobo sem que um caçador surgisse para garantir um final feliz. Logo, devemos nos atentar para os sentidos das mudanças que se operam no âmbito das representações sociais de certas épocas. Assim, os contos de fadas, através de sua riqueza simbólica, descrevem a realidade subjetiva da mente humana. Isso os torna mais verdadeiros, pois nos faz refletir sobre os aspectos mais obscuros da psique, que não podem ser alcançados diretamente através do
pensamento consciente. Esse poder de atuação é maior ainda para o pensamento infantil, pois a criança é imediatamente captada pela beleza e a linguagem, que muito se aproxima de seu próprio mundo inconsciente. Por isso, ao ouvir ou ler esses contos, seu psiquismo se desenvolve. Primeiramente, porque ela tem o desafio intelectual de compreender uma narrativa tão rica, intrincada e bem urdida e também, porque dominando o conflito da história, está dominando seus próprios conflitos internos.
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