Quando a Rainha dá a luz a uma menina, deixa viúvo e triste o Rei que, então, dedica-se à filha. Quando completa quinze anos, sua semelhança com a genitora é grande. O pai se apaixona e deseja se casar com ela. Aterrorizada, refugia-se junto à Aia que a criara. Preocupada, a serva tenta impedir o casamento. Instrui a adolescente para exigir do pai algo impossível, mas como condição para aceitá-lo como marido: um vestido feito de Sol. Ouvido o pedido, o Rei convoca todos os tecelões e ordena que seja feito. Em três dias está pronto. Novamente, a Aia repete o conselho, porém deverá ser de Lua. Cumprido. Novo pedido, mas de um de Mar. Realizado. Furioso com a recusa, o Rei declara que se casará com ela, caso contrário, mandará matá-la. A criada obtém uma
pele de
burro, nela envolve a jovem e a leva para fora do reino, deixando-a entregue à própria sorte. Assim, disfarçada, Pele-de-Asno chega ao reino vizinho, onde consegue trabalho como cozinheira do palácio e, por causa de seu aspecto repugnante, oferecem-lhe como abrigo um chiqueiro. Inconformada, todas as noites, veste seus vestidos e chora sua sina. Enquanto isso, o
Príncipe deste reino chega à idade do casamento. O Rei convida todas as damas solteiras para três bailes para que seu filho escolha sua futura esposa. Usando seus vestidos de Sol, de Lua e de Mar, a moça comparece às cerimônias e, desde a primeira, é a preferida do rapaz que somente dança com ela. Entretanto, não revela sua identidade. Ao fim do terceiro baile, retorna aos seus afazeres. O Príncipe adoece e vários médicos não conseguem curá-lo, porque desconhecem seu mal. Pele-de-Asno, durante a preparação de um
bolo, perde seu
anel na massa. Quando o herdeiro do trono, na primeira mordida, sente a jóia, retira-a da boca e a reconhece como o da moça com quem dançara. Indaga quem o colocou ali. A moça é trazida, questionada e diante de todos tira a pele, aparecendo no vestido de Sol. O rapaz se levanta e a pede em casamento. Os dois contraem matrimônio e vivem felizes.
Em Pele-de-Asno, o desejo incestuoso paterno é a mola do conto. A mãe morta é substituída pela criada, a qual protegeu a menina contra a loucura do pai que é um fogoso senhor. A trama é bem complicada. A bondade da Aia é ambígua e suspeita. Inicialmente procura esconder a menina, conservando-a distante. Depois, sugere os vestidos que a tornam sedutora, instigando o pai, culminando na ameaça de morte. Finalmente, é a Aia quem a coloca no interior da pele de um burro e a conduz para longe. A relação familiar, neste conto, é ternária, porque entre o pai e a filha, se coloca a Aia. Logo, a Princesa está sob a ameaça de dois amores: o do genitor – perceptível - e o da Aia – imperceptível. A falsa protetora também está a serviço de outra fantasia, a da Princesa, cujo amor de adolescente pelo pai não pode aparecer, pois o sentimento nutrido pelo progenitor é causado pela sua semelhança com a mãe, cujo papel ele não consegui ocupar, mas colocou uma subalterna para exerce-lo. Papel este que a jovem ocupará, ao tornar-se cozinheira. O disfarce de pele de burro, zoomorfiza a menina, intuindo a fertilidade e a purificação. Na Grécia, há o rito de morte do bode para expiação das culpas, renascimento e fertilização da terra, cujos participantes se cobrem com peles de bodes, dançam, têm relações sexuais e bebem vinho, encenando a história do deus Dionísio. Coberta por esta pele, a jovem realiza um ritual semelhante, ao qual se acrescenta à morada no chiqueiro. Assim, sua passagem é esperada no meio da sujeira. Essa impureza, em muitas culturas, é a menstruação que isola as mulheres, fazendo-as intocáveis. Por outro, são os desejos proibidos, a masturbação, vestir os vestidos antes de dormir, a fase anal. Pele-de-Asno trabalha na cozinha do palácio, próximo ao fogão. Esse lugar transforma a adolescente em doadora do alimento, a “mãe”, mas também lhe dá o trigo, símbolo da virgindade e de fertilidade. Assim, se articulam a vida, a morte e a pele de animal para a purificação, a virgindade e a fertilidade.
Quanto aos bailes são os primeiros jogos amorosos, mas que não se pode ficar até o fim, simbolizando a relação sexual, sob pena de perder os encantamentos. Retorna ao triste destino, deixando o príncipe doente, de desejo. Já, o bolo é o símbolo do órgão genital feminino, sendo nele que se encontra o remédio, o anel. Este, além de símbolo da aliança matrimonial, assume sentido para a sexualidade da personagem masculina. Antes de colocá-lo no dedo, o põe na boca. Sua doença é a infantilidade. Sua cura, transferir a jóia da boca para o dedo e reconhecê-la como um objeto doado, não podendo devorá-lo. Os vestidos também são significativos, fabricados com elementos naturais. Em inúmeras mitologias, esses elementos são deuses e costumam formar uma trilogia indissolúvel: sol-dia-fogo-sexo; noite-treva-mistério-sexo; mar-água-abismo-sexo. Força vital, mágica e concebedora. O número três é considerado o número perfeito ou de harmonia e da síntese dos contrários. Possui poderes mágicos.
Percebe-se que, em “Pele-de-Asno”, Perreault explorou muitos recursos figurativos simbólicos durante a construção da narrativa. Aprofundando-se em seus significados, podemos relaciona-los a fase da adolescência, na qual o jovem descobre sua sexualidade e seus desejos carnais e, também, o anseio de libertação da proteção familiar.
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