Os
alunos do 3º e do 4º
ciclo do Ensino Fundamental
apresentam idades, geralmente, entre onze e quinze anos. Esta fase da educação
escolar compreende a adolescência, período em que o desenvolvimento do sujeito
é marcado pelo processo de (re)constituição da identidade, para o qual
concorrem transformações corporais, afetivo-emocionais, cognitivas e
sócio-culturais, fazendo com que haja a necessidade de reformulação de sua
auto-imagem. As transformações citadas articulam-se com aquelas relativas ao
desenvolvimento cognitivo. Sob esse aspecto, a
adolescência implica a ampliação
de formas de raciocínio, organização e representações de observações e
opiniões, bem como o desenvolvimento da capacidade de investigação,
levantamento de hipóteses, abstração, análise e síntese na direção de
raciocínio cada vez mais formal, trazendo a
possibilidade de constituição de
conceitos mais próximos dos científicos. Além disso, os alunos desenvolvem um
tipo de comportamento e um conjunto de valores que atuam como
forma de
identidade: o lugar que ocupam na sociedade, nas relações estabelecidas com o
mundo adulto e na sua inclusão no interior de grupos específicos de
convivência. Esse processo repercute no tipo de linguagem por eles usada,
constituindo-se um tipo de jargão, um estilo ou uma forma de expressão. Pensar
sobre o ensino e o aprendizado de Língua Portuguesa, nesta etapa, requer a
compreensão da adolescência como uma fase complexa na qual deve ser valorizada
a característica própria de cada estudante adolescente, a especificidade do
espaço escolar e o esforço de articulação dos aspectos envolvidos nesse
processo, considerando os aspectos das práticas sociais da linguagem, em
situações didáticas, que possam contribuir para a formação do sujeito. No caso
do ensino da língua vernácula, considerar a condição afetiva, cognitiva e
social do aprendiz implica a possibilidade de um fazer reflexivo, em que se
opera concretamente com a linguagem e se busca construir um saber sobre a
língua e linguagem e sobre os modos como as opiniões, valores e saberes são
veiculados nos discursos orais e escritos. Tal possibilidade ganha particular
importância na medida em que o acesso a textos escritos complexos, com padrões
lingüísticos distantes da oralidade e com sistemas de referências distantes do
senso comum e do cotidiano impõe a necessidade de percepção da diversidade do
fenômeno lingüístico e dos valores constituídos em torno das formas de
expressão. Considerando que, para o adolescente, sua necessidade primordial é a
reconstituição de sua identidade a fim de construir sua autonomia e que para
tanto, é indispensável o conhecimento de novas formas de enxergar e interpretar
os problemas que enfrenta, o trabalho de reflexão deve permitir-lhe tanto o
reconhecimento de sua linguagem e de seu lugar no mundo quanto à percepção de
outras formas de organização do discurso. Dessa forma, a função da escola é o
de permitir que o sujeito supere sua condição imediata. Nas situações de ensino
de língua, a mediação do professor é fundamental, porque cabe a ele mostrar a
importância o valor da palavra do outro, pois essa apresenta possibilidade de
análise e reflexão. A escola deve garantir que a sala de aula seja um espaço onde
cada um tenha o direito à fala. Trata-se de instaurar um espaço de reflexão
onde seja possibilitado o contato efetivo de diferentes opiniões, onde o
diferente seja apreciado pela (re)interpretação do real e onde se compreenda a
diversidade constitutiva dos sujeitos. A mediação do professor visa organizar
ações que possibilitem aos alunos o contato crítico e reflexivo com o diferente
e o desvelamento dos implícitos das práticas de linguagem. Particularmente, a
consideração das particularidades das situações comunicativas coloca-se como
aspecto fundamental a ser tematizado, dado que a possibilidade de o sujeito ter
seu discurso legitimado passar por sua habilidade de organizá-lo adequadamente.Ao organizar o ensino, o professor deve se instrumentalizar para descrever a
competência discursiva de cada um de seus alunos, no que diz respeito à escuta,
leitura e produção textual. Nessa perspectiva, considera-se que a ideal
situação de aprendizagem apresenta conteúdos novos ou possibilidades de
aprofundamento de conteúdos já tematizados. Organizá-la requer que o professor
tenha clareza das finalidades colocadas par o ensino e dos conhecimentos que
precisam ser construídos para alcançá-las. Nesse processo, deve-se dispor tanto
de uma descrição dos elementos regulares e constitutivos do gênero quanto das
especificidades do texto selecionado, já que a intervenção precisa ser
orientada por esses aspectos discretizados. A discretização de conteúdos
possibilita a ampliação e apropriação dos recursos expressivos e dos procedimentos
de compreensão, interpretação e produção dos textos, bem como de instrumentos
de análise lingüística. O desenvolvimento da capacidade de análise, de
investigação e de abstração permitem ao educador abordar os conhecimentos
lingüísticos de forma diferenciada. Nesse momento, há um maior equilíbrio e os
aspectos do conhecimento lingüístico merecem tratamento mais aprofundado na
direção da construção de novas formas de organizá-lo e representá-lo que
amplifiquem a construção de categorias, intuitivas ou não. A forma de abordagem
dos conteúdos se diferenciará, considerando o princípio de que a constituição
de conceitos acontece num movimento espiralado e progressivo, através do qual
pretende-se a aproximação crescente dos conceitos mais complexos e sofisticados.
Assim, os aspectos do conhecimento receberão um tratamento que será mais
metalingüístico quanto maior for o nível de aprofundamento exigido e suas
características específicas permitirem. Em suma, a escola deverá organizar um
conjunto de atividades que possibilitem ao aluno desenvolver o domínio da
expressão oral e escrita em situações de uso público da linguagem, levando em
conta a situação de produção social e material do texto, selecionando os
gêneros adequados para a produção textual, operando sobre as dimensões
pragmática, semântica e gramatical.
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