Quando vieres, enfim,
depositar em mim
teu olhar esvaziado em pupilas de fogo,
não te negarei o derradeiro óbolo,
que irei depositar com
gosto em tuas mãos descarnadas.
Já de há muito observo,
com a calma louca dos mártires,
teu ir e vir traiçoeiro
entre as faces deste rio morto.
E aprendi com o tempo.
Tomei gosto por tuas barbas grisalhas,
tuas vestes toscas e sujas,
já não mais me escandalizo
com tua figura aziaga.
Mas me nego a entrar em tua barca
E remar com teus remos,
rumo ao inexorável.
Deixa-me, antes, à margem,
chorar meus cem anos de lágrimas amargas,
ancestrais e inexplicáveis,
para depois ir contigo
afogar em outras águas as memórias tolas
que construí vivendo à sombra do destino,
mas resguardei ocultas à vontade dos deuses.
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