Segundo Thomas Friedman, autor do best-seller “O mundo é Plano”, a globalização atravessou três grandes eras. A primeira delas se estendeu de 1492 – quando Cristóvão Colombo embarcou, inaugurando o comércio entre o Velho e o Novo Mundo – até por volta de 1800. Essa etapa poderia ser denominada de Etapa de Globalização 1.0, que reduziu o tamanho do mundo de grande para médio e envolveu basicamente países e esforços individuais. Isto é, o principal agente da mudança, a força dinâmica por trás do processo de integração global, era a potência muscular (a quantidade de força física, a quantidade de cavalos-vapor, a quantidade de ventos) que o país possuía e a criatividade com que a empregava. A segunda grande era, a Globalização 2.0, durou mais ou menos de 1800 a 2000, e diminuiu o mundo do tamanho médio para o pequeno. O principal agente da mudança, a força dinâmica que moveu a integração global, foram as empresas multinacionais que se expandiram em busca de mercados e mão-de-obra. Na primeira metade dessa era, a integração global foi alimentada pela queda dos custos de transporte (graças ao motor a vapor e às ferrovias) e, na segunda, pela queda dos custos de comunicação em decorrência da difusão do telégrafo, da telefonia, dos PCs, dos satélites, dos cabos de fibra ótica e da Wolrd Wide Web em sua versão inicial). Foi nesse período que assistimos de fato ao nascimento e à maturação de uma economia global propriamente dita, no sentido de que havia uma movimentação de bens e informações entre os continentes em volume suficiente para a constituição de um mercado de fato global. As forças dinâmicas por trás dessa etapa da globalização foram as inovações de hardware (dos barcos a vapor e ferrovias, no princípio, aos telefones e mainframes, mais para o final). Nesse período ruíram muros em todo o mundo e a integração – e a resistência a ela – atingiu um nível sem precedentes. Por mais muros que fossem derrubados, todavia, continuavam havendo inúmeras barreiras a uma integração global homogênea. Basta pensar que quando Bill Clinton foi eleito presidente dos EUA, em 1992, praticamente ninguém que não pertencesse ao governo ou ao meio acadêmico tinha e-mail. E seis anos depois, em 1998, o comércio eletrônico ainda estava engatinhando. Por volta do ano 2000 o mundo entrou em uma nova era: a Globalização 3.0, que está não apenas encolhendo o tamanho do mundo de pequeno para minúsculo, como também, ao mesmo tempo, aplainando o terreno. Enquanto a força dinâmica da Globalização 1.0 foi o maior intercâmbio entre os países e na Globalização 2.0, o das empresas, na Globalização 3.0 a força dinâmica vigente – aquilo que lhe confere caráter único – é a recente descoberta da capacidade dos indivíduos de colaborarem e concorrerem no âmbito mundial, e a alavanca que vem permitindo que indivíduos e grupos se globalizem com tamanha facilidade e de maneira tão uniforme é, não o cavalo-vapor nem o hardware mas o software (novos aplicativos de todos os gêneros), conjugado à criação de uma rede de fibra óptica em escala planetária que nos converteu, a todos, em vizinhos de porta. Entretanto, a Globalização 3.0 não difere das eras anteriores apenas em termos de o quanto vem encolhendo e achatando o mundo e do poder com que está munindo o indivíduo. A diferença reside também no fato de que as duas primeiras etapas foram encabeçadas basicamente por europeus e americanos, pessoas e empresas. A tendência, todavia, é que esse fenômeno se inverta: em virtude do achatamento e do encolhimento do mundo, esta fase 3.0 será cada vez mais movida não só por indivíduos, mas também por um grupo muito mais diversificado de não-ocidentais e não-brancos. Pessoas de todos os cantos do mundo estão adquirindo poder; a Globalização 3.0 possibilita a um número cada vez maior de pessoas se conectarem num piscar de olhos, com todas as facetas da diversidade humana entrando na roda. Os saltos de produtividade serão colossais para os países, empresas e indivíduos capazes de absorver as novas ferramentas tecnológicas. Está sendo inaugurada uma fase em que todos, mais do que nunca antes na história mundial, terão acesso a essas ferramentas – como inovadores, como colaboradores e, infelizmente, até como terroristas. A verdadeira revolução da informação está prestes a começar: a nova etapa da Globalização 3.0, o que faz com que a Terra deixe de ser redonda e se achate. Para onde quer que olhemos, vemos hierarquias sendo desafiadas de baixo para cima, deixando de ser estruturas verticais e se horizontalizando. Globalização é um termo que foi criado na administração de Bill Clinton para descrever as relações entre governos e grandes empresas. Mas o que está acontecendo hoje é um fenômeno muito mais amplo e profundo. Determinados empregos agora se dão no ciberespaço, profissionais agora colaboram com outros nos confins do planeta, produtos são gerados ao mesmo tempo em diversos lugares. Nesse caso, quem regula o trabalho? Quem o tributa? E quem deve se beneficiar desses impostos? O achatamento do mundo entrará para a História como uma daquelas transformações cruciais, como a ascensão do Estado-nação ou a Revolução Industrial. Todas as vezes em que a civilização enfrentou uma dessas revoluções tecnológicas – como a introdução da imprensa de Gutenberg, por exemplo – o mundo sofreu profundas modificações.
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