O Português das descobertas perdeu por completo a noção da realidade. Deixou-se cegar pela ambição, foi arrastado pelo turbilhão do poder e vive num mundo de que estão arredados os valores autênticos.
Assim, é levianamente que embarca para qualquer viagem, convicto que dela regressará rico e coberto de glória e prestígio. Por isso, em nome desra ambição,
esquece tudo, esquece a família, o aconchego do lar, a doçura dos afectos. Contudo procura desculpar-se dizendo agir movido por nobres ideais, empenhado em dilatar a Fé e o Império, missão de que se sente superiormente incumbido. Na realidade, engana-se a si próprio, ao mesmo
tempo que a todos engana. Julga-se corajoso e aventureiro, por enfrentar perigos e tormentas quando, na
realidade se revela alheio às situações que cria, indeferente aos riscos. Com tudo isto, não abrange a verdadeira dimensão das suas opções, nem se apercebe do risco em que deixa a pátria e a família, à mercê de forças hostis, insensível à degradação dos usos e costumes, mas também à derrocada dos sentimentos.
Em suma, é urgente que o português deste nosso tempo entenda de uma vez por todas o logro em que vai caindo e procure emendar a mão se ainda for tempo disso. Para bem de todos, não se pode perder mais tempo.
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